Título:
Idéias e Paixões

Organizador:
F. Caruso
 

Crítico, perspicaz, irônico, inquieto, mas, sobretudo, apaixonado por tudo aquilo que faz e que o cerca, pela Ciência, pela Educação, pelas Artes, pelas mulheres, pela vida, enfim, José Leite Lopes é um dos maiores nomes da Ciência brasileira. Essa sua paixão transcende, na verdade, a Ciência e o leva a buscar interrelações com outras atividades da sociedade, contribuindo para que a Ciência se insira no contexto mais amplo da nossa Cultura. Desta forma, o cientista e o humanista se completam, e se fundem ainda com o artista Leite Lopes. Uma constante preocupação com o papel ético e social do cientista permeia também sua obra de forma muito marcante. Essa paixão, nutrida por um intelectual extremanente ativo, que teimou em dedicar toda uma vida à criação de um ambiente científico no Brasil, o faz ir além de seus poros e invadir o espaço dos outros. Este livro permitirá aos leitores invadirem o universo de suas lembranças, de suas idéias, de seus amores e vislumbrarem traços de um eterno apaixonado.

A uma pessoa assim tão especial, é difícil dar um presente especial quando ela completa 80 anos. Foi exatamente pensando nessa dificuldade que me ocorreu propor a Leite Lopes que fosse ele a nos dar um presente na forma de um livro. Lembrei-me, então, que Ernesto Sábato nos havia presenteado com o belo livro Nós e o Universo, escrito em forma de verbetes, quando abandonou a Física. Assim, comecei a escolher um conjunto de palavras através do qual veríamos refletida uma espécie de imagem cubista do aniversariante. A escolha era, portanto, muito importante, pois deveria também refletir a multiplicidade de interesses de Leite Lopes, permitindo a cada leitor formar o perfil deste cientista ainda apaixonado pela Física. Decidido isto, quantos verbetes escolher? 83 me pareceu ser a escolha natural: 80 para comemorar seus 80 anos e 3 adicionais como a metáfora dos três pontos das reticências a lhe desejar muitos e muitos anos de vida.* Para minha alegria, Leite Lopes aceitou imediatamente o convite e, no dia 27 de março de 1998, demos início à gravação das entrevistas que se estenderam até o dia 10 de setembro, registradas em pouco menos de 7 fitas de áudio de 60 minutos cada. A transcrição ipsis litteris das entrevistas foi feita com a inestimável colaboração do aluno Bruno Maia. Este texto foi editado por mim e foi revisto e corrigido pelo Prof. Leite Lopes, que introduziu pouquíssima informação que não consta das fitas. No árduo trabalho de revisão, pude contar com o auxílio fundamental da Sra. Márcia de Oliveira Reis Brandão e do Prof. Roberto Moreira Xavier de Araújo. Aos três gostaria de externar minha sincera gratidão. Agradeço ainda ao Prof. Amós Troper, Diretor do CBPF, por seu decisivo apoio a esta publicação.

Durante o longo período de gravação das entrevistas, mantive um convívio quase diário com Leite Lopes e o número de horas que conversamos superou em muito o número de horas gravadas. Nossas conversas eram sempre pela manhã, em sua sala no terceiro andar do CBPF, em meio a seus livros e seus quadros, e o ritmo de trabalho não foi sempre uniforme, devido a vários fatores, mas foi sempre muito prazeroso e, por várias vezes, seu lado humano falou mais alto e suas palavras afloraram carregadas de sentimento. Lembro-me, por exemplo, de vê-lo emocionado quando pediu para ouvir o que havia dito sobre "amor"; de sua indignação ao falar sobre a "seca", poucos dias após termos visto na televisão uma reportagem sobre a fome causada pela seca no Nordeste; de sua empolgação recitando Rilke em alemão e em português; de seus olhos divagarem quando falava de certas pessoas do passado e do carinho com que se referia a outras. Raríssimas vezes Leite pediu para falar sobre o tema proposto em um outro dia; na grande maioria das vezes, ele começava a falar imediatamente após eu lhe propor o tema e, em certas ocasiões, era difícil fazê-lo parar.

Para o leitor que não conhece a obra do Prof. José Leite Lopes, ofereço, agora, um resumo de sua trajetória como homem e cientista.

Nascido em 28 de outubro de 1918, na cidade do Recife, Pernambuco, Brasil, José Leite Lopes concluiu seus estudos secundários no Colégio Marista, em sua cidade natal, em 1934. Bacharelou-se em Química Industrial na Escola de Engenharia de Pernambuco, em 1939. Influenciado por seu grande mestre Luiz Freire, deu início aos seus estudos de Física no Rio de Janeiro, para onde veio com uma bolsa de estudos das indústrias Carlos de Brito do Recife, por indicação do Professor Osvaldo Gonçalves de Lima.

Em 1940, ingressou no Curso de Física da Faculdade Nacional de Filosofia, Rio de Janeiro, concluindo-o em 1942. Nesse mesmo ano trabalhou alguns meses, a convite do Professor Carlos Chagas, no Instituto de Biofísica, com uma bolsa Guilherme Guinle. Em 1943, com uma bolsa da Fundação Zerrener, trabalhou no Departamento de Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, assistindo aos cursos de Gleb Wataghin e Mario Schenberg. Com uma bolsa do Governo dos Estados Unidos, dirigiu-se à Universidade de Princeton, onde trabalhou com J.M. Jauch e fez sua tese de doutorado (Ph.D.), sob a orientação de Wolfgang Pauli (Prêmio Nobel de Física), durante os anos de 1944 e 1945. Em outubro de 1945, aos 27 anos, foi nomeado Professor de Física Teórica e Superior da Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro e tomou posse na cátedra em 1946. Em 1948, fez concurso para cátedra de Física Teórica e Física Superior da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e recebeu o grau de Doutor em Ciências pela mesma Universidade. Em janeiro de 1949, juntamente com Cesar Lattes, e com o apoio do Ministro João Alberto Lins de Barros, de Nelson Lins de Barros e de Henry British Lins de Barros, fundou o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Em 1949, ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim e a convite de Oppenheimer tornou-se membro do Instituto de Altos Estudos de Princeton.

Entre 1955 e 1964, foi Diretor da Divisão de Ciências Físicas do Conselho Nacional de Pesquisas. Nos anos de 1956 e 1957, a convite de Richard Feynman, foi Pesquisador Visitante no California Institute of Technology. Ocupou vários cargos de chefia e de administração científica no CBPF, no CNPq e na Universidade do Brasil.

Em 1960, organizou a 2a. Escola Latino-Americana de Física no Rio de Janeiro e sugeriu ao Conselho Técnico-Científico do CBPF que propusesse ao Ministério das Relações Exteriores e à UNESCO a criação de um Centro Latino-Americano de Física. Entre 1962 e 1964, foi organizador e coordenador do Instituto de Física da nova Universidade de Brasília. Até 1964 foi membro do Conselho de Curadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) onde apresentou conferências sobre energia atômica. Nesse ano, aceitou convite para ser Professor Visitante da Faculdade de Ciências de Orsay, Universidade de Paris, onde permaneceu até março de 1967. Em 1969, foi aposentado compulsoriamente da Universidade Federal do Rio de Janeiro por decreto governamental baseado no AI 5; em conseqüência, aceitou convite da Universidade Carnegie-Mellon, Pittsburgh, para onde se transferiu como professor visitante, durante o ano acadêmico 1969-1970. Foi ainda demitido do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas por portaria do Presidente desta Instituição. Entre 1970 e 1974, foi professor visitante da Universidade de Strasbourg I, Université Louis Pasteur e, no ano em que chegou, fundou, com Michel Paty e outros colegas, os seminários sobre os Fundamentos da Ciência, que, mais tarde, deram origem à revista Fundamenta Scientiae. Em 1974, foi nomeado, excepcionalmente, Professor Titular da Universidade Strasbourg I, pelo Presidente da República Francesa V. Giscard D’Estaing. De 1975 a 1978 foi Vice-Diretor do Centro de Pesquisas Nucleares de Strasbourg (Centre de Recherche Nucléaires, CNRS) e Diretor de sua Divisão de Altas Energias. Voltou ao Brasil, em 1981, para o Centro que havia fundado, mas não em definitivo. Somente em 1986, após ser convidado pelo então Ministro da Ciência e Tecnologia, Renato Archer, para dirigir o CBPF, retornou de vez ao Brasil.

José Leite Lopes tem uma vasta obra científica, com mais de 80 trabalhos publicados, dentre os quais destacamos seu importante artigo de 1958, na prestigiosa revista Nuclear Physics, no qual prediz a existência de bósons vetoriais neutros, juntamente com bósons carregados, como veículos da interação fraca, sugerindo a unificação das forças eletromagnéticas com as forças fracas e postulando a igualdade das constantes fundamentais das interações fraca e eletromagnética. A partir desta hipótese, Leite Lopes nos deu a primeira avaliação correta da massa dos bósons vetoriais.

Além de suas atividades de pesquisa científica, Leite Lopes preocupou-se sempre com a Educação e com o papel social do cientista e da Universidade, como atestam suas publicações sobre estes temas. De fato, é autor de 21 livros, dentre livros-textos e de reflexões sobre Ciência, e de mais de uma centena de artigos sobre educação e política científica.

Como reconhecimento à sua vasta obra, recebeu o título de Professor Emérito do CBPF (1992), da Univ. Louis Pasteur, Strasbourg, França (1986) e da UFRJ (1984), de Doutor Honoris Causa da UERJ (1989) e da Universidade Federal de Pernambuco (1986). É membro de sete Sociedades Científicas no Brasil e no exterior, tendo recebido as seguintes condecorações: medalha da Universidade Louis Pasteur de Strasbourg (1986); medalha Carneiro Felipe da Comissão Nacional de Energia Nuclear (1988); Ordre des Palmes Académiques, do governo francês no grau de Officier (1989); Ordre National du Mérite, entregue pelo Presidente da República Francesa no grau de Officer (1989); Prêmio Nacional da Ciência Álvaro Alberto (1989) e Prêmio México de Ciência e Tecnologia do governo mexicano (1993).

Esta apresentação resumida - inevitavelmente fria e formal - do curriculum vitae do Prof. José Leite Lopes é, sem dúvida, incompleta, principalmente porque não reflete o prazer de se conviver no dia-a-dia com Leite Lopes, de compartilhar de seu idealismo contagiante, de seu entusiamo que parece não ter fim.

Concluindo, gostaria de agradecer ao Prof. Leite Lopes por ter aceito meu convite para preparar o livro que, em princípio, gostaria de lhe dar de presente no seu aniversário, como prova de minha admiração e amizade, mas que acabou se transformando, acredito, em um presente que Leite Lopes dá à comunidade científica e à sociedade culta de nosso país. Caro Leite, parabéns e muitos e muitos anos de vida!

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