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Apresentação
Em meados de 1988, quando estava trabalhando no JET (Joint European Torus),
em Abingdon, Inglaterra, recebi um telefonema bem tarde de uma noite. O
soar da campainha me assustou, pois um telefonema tão tarde só poderia ser
do Brasil e, possivelmente, trazia notícias urgentes e desagradáveis. Ao
atender, ouvi aquela voz agradável com sotaque nordestino: “Galvão, aqui é
o Leite, como vai?”.
Havíamos nos conhecido há
apenas cerca de um ano, em função das discussões sobre a criação do
Laboratório Nacional de Plasmas, que estava sendo promovida pelo Ministro
Renato Archer, mas entre nós já havia surgido uma grande sintonia, apesar
de nossas personalidades bastante distintas.
“As discussões sobre o
Laboratório estão emperradas; o pessoal de São Paulo não abre mão de
localizá-lo lá. Por isso eu o estou convocando para voltar logo e vir para
o CBPF. Você aceita?” Dias depois lhe telefonei para informar porque não
poderia aceitar sua oferta naquela ocasião. Ele me xingou carinhosamente,
como era de seu estilo, para depois concluir, “mas as portas continuam
abertas para você”.
Em julho de 2004, quando
entrei no auditório para a cerimônia de minha posse como Diretor do CBPF,
ele já estava lá, sentado numa cadeira de rodas. Ao cumprimentá-lo, a
primeira coisa que me disse foi “Você demorou muito para atender minha
convocação”. Depois concluiu “mas estou contente que tenha vindo; procure
tratar esta casa com respeito e grande dedicação”.
Este curto testemunho
exemplifica a personalidade deste cientista e humanista excepcional, que
sempre foi capaz de associar com habilidade um certo tom de irreverência e
humor a afirmações sérias e plenas de significado científico e ético. Ele
soube usar essa mistura bem balanceada de irreverência e seriedade para
divulgar a ciência e discutir os problemas que afligem nossa sociedade com
raro brilhantismo, sempre atraindo grandes audiências em suas
apresentações.
No ano passado tive a
felicidade de desfrutar momentos preciosos de conversas privadas com ele,
algumas vezes no CBPF e outras em sua casa, durante almoços memoráveis,
tanto pela qualidade da comida e do vinho como pelos temas abordados. A
memória já não lhe era tão fiel e ele estava um tanto desiludido com seu
estado de saúde e com o rumo da política em nosso País. Mas o que mais lhe
afligia era não poder mais fazer ciência como antes. Sua preocupação com o
desenvolvimento científico do Brasil era uma constante. Ele me desafiava,
com aquela entonação arrastada que usava quando queria dar um tom de
provocação em suas manifestações: “Galvão, você que vem da prestigiosa
USSSSP, me indique o nome de pelo menos um jovem físico brasileiro que
esteja de fato despontando no cenário científico Internacional”. E
acrescentava, “Será que não estamos afogando a criatividade de nossos
jovens talentos?”.
Eu não sabia e ainda não
sei como responder corretamente a esta pergunta. Mas tenho certeza de que
o exemplo que ele nos deixou, como cientista, professor e humanista, será
uma semente que frutificará belamente no espírito de jovens cientistas
brasileiros.
Ricardo
Galvão
Março de 2006
Pequena Autobiografia
Após a minha graduação como
Químico Industrial (Recife, 1939), como Bacharel em Física (Rio de
Janeiro, 1942) e como Doutor em Física, PhD (Princeton, 1946), fui nomeado
Professor de Física Teórica (Faculdade Nacional de Filosofia, 1946) cargo
que mantive até a minha cassação pelo regime militar (1969). Fui
sucessivamente Membro do Institute for Advanced Study (1949-1950),
Secretário Científico da 1a. Conferência Internacional de Energia Atômica
(ONU, 1955), Senior Research Fellow no California Institute of Technology
(1956-1957), Professor Visitante na Faculdade de Ciências de Orsay
(1964-1967), na Carnegie-Mellon University (1969-1970), Professor Titular
na Universidade de Strasbourg (1970-1986), Vice-Diretor do Centro de
Recherches Nucleaires, Strasbourg (1975-1978), Diretor do CBPF (1960-1964,
1986-1989).
Sou membro da Academia
Internacional de Humanismo (Buffalo, N.Y.), da Academia de Ciências
do Terceiro Mundo (Trieste, Itália), da Academia de Ciências da
América Latina, ganhei a Medalha da Universidade de Strasbourg
(1986) e fui agraciado com a Ordem Nacional do Mérito Científico
(Brasília, 1994) assim, como com a Medalha Nacional de Ciências,
Alvaro Alberto (1989).
Além de trabalhos
originários de pesquisa científica e de filosofia da física, entre os
quais o que provei a existência do boson Zo e a unificação das forças
eletromagnéticas e as forças fracas (1958), publiquei vários livros
adotados internacionalmente como Fondements de la Physique Atomique
(Hermann, 1967), Lectures on Symmetries (Gordon & Breach,
1969) e Gauge Field Theories (Pergamon Press, 1981, 1983),
Theorie Relativiste de la Gravitation (Masson, 1993) e
Sources et Évolution de la Physique Quantique (em colaboração
com B. Escoubès, Masson 1995).
Vida e Obra
por Francisco Caruso
SAUDAÇÃO A JOSÉ
LEITE LOPES*
É um enorme prazer poder,
de público, prestar uma homenagem ao meu querido mestre e amigo Prof. José
Leite Lopes, por ocasião de seu octogésimo sétimo aniversário e gostaria
de agradecer ao meu amigo Helayël por essa oportunidade.
Conheci pessoalmente o
Leite em 1981, sendo seu aluno aqui no CBPF no primeiro curso que ele deu
no Brasil, após sua volta do exílio. Foi um curso de Mecânica Quântica e,
desde então, tenho aprendido a admirá-lo em 24 anos de convívio.
Leite Lopes, pernambucano
de Recife (talvez devesse dizer "do" Recife), nascido em 28 de outubro de
1918, é hoje um ícone da Ciência e da Cultura no Brasil; um daqueles
brasileiros que nos fazem sentir orgulho de nossas origens. Leite deveria
servir de exemplo para os que estão se formando, principalmente, quando os
caminhos imediatistas da ciência no país, delineados por uma crença difusa
na indústria dos papers, turvam a perspectiva de virmos a ter jovens
cientistas do seu porte. Se devêssemos defini-lo com apenas um adjetivo,
escolheríamos apaixonado. Sua paixão é transcendente; ultrapassa em muito
as fronteiras da Ciência, espalhando-se pela Educação, pela Cultura, pelas
Artes e, porque não dizer, pelas mulheres e pela vida. É essa paixão, que
se nutre de um intelecto vivaz contagiante a ponto de nos fazer querer
dela compartilhar sempre mais o motor da dedicação de toda sua vida à
criação de um ambiente propício ao desenvolvimento científico no Brasil,
muitas vezes opondo-se ao poder de forma contundente.
Seu humanismo reflete-se em
tudo que faz: na sua permanente preocupação com o papel ético e social do
cientista, na formação científica dos jovens, na sua pintura, quando se
emociona recitando Rilke em alemão ou dando uma entrevista sobre o tema
"amor". Um retrato cubista desse humanista está traçado no livro Idéias e
Paixões, que tive o prazer de preparar, com o apoio de Amós Troper, como
presente de aniversário de 80 anos do Leite.
Talvez seja oportuno
relembrar brevemente a trajetória acadêmica de José Leite Lopes. Ele
concluiu seus estudos secundários no Colégio Marista, em sua cidade natal,
em 1934. Bacharelou-se em Química Industrial na Escola de Engenharia de
Pernambuco, em 1939. Influenciado por seu grande mestre Luiz Freire, que
marcou seu espírito de professor de tal modo que o tempo não apagou essa
influência, Leite deu início aos seus estudos de Física no Rio de Janeiro,
para onde veio com uma bolsa de estudos das indústrias Carlos de Brito, do
Recife, por indicação do Professor Osvaldo Gonçalves de Lima.
Em 1940, ingressou no Curso
de Física da Faculdade Nacional de Filosofia, Rio de Janeiro, concluindo-o
em 1942. Nesse mesmo ano trabalhou alguns meses, a convite do Professor
Carlos Chagas, no Instituto de Biofísica, com uma bolsa Guilherme Guinle.
Em 1943, com uma bolsa da Fundação Zerrener, trabalhou no Departamento de
Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São
Paulo, assistindo aos cursos de Gleb Wataghin e Mario Schenberg. Com uma
bolsa do Governo dos Estados Unidos, dirigiu-se à Universidade de
Princeton, onde trabalhou com J.M. Jauch e fez sua tese de doutorado (Ph.D.),
sob a orientação de Wolfgang Pauli (Prêmio Nobel de Física), durante os
anos de 1944 e 1945. Em outubro de 1945, aos 27 anos, foi nomeado
Professor de Física Teórica e Superior da Faculdade Nacional de Filosofia
do Rio de Janeiro e tomou posse na cátedra em 1946. Em 1948, fez concurso
para cátedra de Física Teórica e Física Superior da Faculdade Nacional de
Filosofia da Universidade do Brasil e recebeu o grau de Doutor em Ciências
pela mesma Universidade. Em janeiro de 1949, juntamente com Cesar Lattes,
e com o apoio do Ministro João Alberto Lins de Barros, de Nelson Lins de
Barros e de Henry British Lins de Barros, fundou o Centro Brasileiro de
Pesquisas Físicas. Em 1949, ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim e, a
convite de Oppenheimer, tornou-se membro do Instituto de Altos Estudos de
Princeton.
Entre 1955 e 1964, foi
Diretor da Divisão de Ciências Físicas do Conselho Nacional de Pesquisas.
Nos anos de 1956 e 1957, a convite de Richard Feynman, foi Pesquisador
Visitante no California Institute of Technology. Ocupou vários
cargos de chefia e de administração científica no CBPF, no CNPq e na
Universidade do Brasil.
Em 1960, organizou a 2a.
Escola Latino-Americana de Física no Rio de Janeiro e sugeriu ao Conselho
Técnico-Científico do CBPF que propusesse ao Ministério das Relações
Exteriores e à UNESCO a criação de um Centro Latino-Americano de Física.
Entre 1962 e 1964, foi organizador e coordenador do Instituto de Física da
nova Universidade de Brasília. Até 1964 foi membro do Conselho de
Curadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), onde
apresentou conferências sobre energia atômica. Nesse ano, aceitou convite
para ser Professor Visitante da Faculdade de Ciências de Orsay,
Universidade de Paris, na qual permaneceu até março de 1967. Em 1969, foi
aposentado compulsoriamente da Universidade Federal do Rio de Janeiro por
decreto governamental baseado no AI-5; em conseqüência, aceitou convite da
Universidade Carnegie-Mellon, em Pittsburgh, para onde se transferiu como
professor visitante, durante o ano acadêmico 1969-1970. Foi ainda demitido
do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas por portaria do Presidente desta
Instituição. Entre 1970 e 1974, foi professor visitante da Universidade de
Strasbourg I, Université Louis Pasteur e, no ano em que chegou, fundou,
com Michel Paty e outros colegas, os seminários sobre os Fundamentos da
Ciência, que, mais tarde, deram origem à revista Fundamenta Scientiae,
que, infelizmente, já não existe mais. Em 1974, foi nomeado,
excepcionalmente, Professor Titular da Universidade Strasbourg I, pelo
Presidente da República Francesa Giscard D’Estaing. De 1975 a 1978 foi
Vice-Diretor do Centro de Pesquisas Nucleares de Strasbourg (Centre de
Recherche Nucléaires, CNRS) e Diretor de sua Divisão de Altas Energias.
Voltou ao Brasil, em 1981, para o Centro que havia fundado, mas não em
definitivo. Somente em 1986, após ser convidado pelo então Ministro da
Ciência e Tecnologia, Renato Archer, para dirigir o CBPF, retornou de vez
ao Brasil.
José Leite Lopes é autor de
uma vasta obra científica, com mais de 80 trabalhos publicados, dentre os
quais destacamos seu importante artigo de 1958, na prestigiosa revista
Nuclear Physics, no qual prediz a existência de bósons vetoriais neutros,
juntamente com bósons carregados, como veículos da interação fraca,
sugerindo a unificação das forças eletromagnéticas com as forças fracas e
postulando a igualdade das constantes fundamentais das interações fraca e
eletromagnética. A partir desta hipótese, Leite Lopes nos deu a primeira
avaliação correta da massa dos bósons vetoriais.
Além de suas atividades de
pesquisa científica, Leite Lopes preocupou-se sempre com a Educação e com
o papel social do cientista e da Universidade, como atestam suas
publicações sobre estes temas. De fato, é autor de 22 livros, dentre
livros-textos e de reflexões sobre Ciência, e de mais de uma centena de
artigos sobre educação e política científica.
Como reconhecimento à sua
vasta obra, recebeu o título de Professor Emérito da UFRJ (1984),
da Univ. Louis Pasteur, Strasbourg, França (1986), da Universidade Federal
de Pernambuco (1986) e do CBPF (1992), e o título de Doutor Honoris
Causa da UERJ (1989). É membro de sete Sociedades Científicas no
Brasil e no exterior, tendo recebido as seguintes condecorações: medalha
da Universidade Louis Pasteur de Strasbourg (1986); medalha Carneiro
Felipe da Comissão Nacional de Energia Nuclear (1988); Ordre des Palmes
Académiques, do governo francês no grau de Officier (1989);
Ordre National du Mérite, entregue pelo Presidente da República
Francesa no grau de Officer (1989); Prêmio Nacional da Ciência Álvaro
Alberto (1989) e Prêmio México de Ciência & Tecnologia do governo mexicano
(1993).
Esta apresentação resumida
inevitavelmente fria e formal do curriculum vitae do Prof. José
Leite Lopes é, sem dúvida, incompleta, principalmente porque não reflete o
prazer de se conviver no dia-a-dia com Leite Lopes, de compartilhar de seu
idealismo contagiante, de seu entusiasmo que parece não ter fim.
Concluindo, gostaria de
agradecer ao Prof. Leite Lopes por continuarmos a desfrutar do convívio
estimulante com esse homem crítico, perspicaz, irônico, inquieto e,
sobretudo, apaixonado. Caríssimo Leite, parabéns e muitos e muitos anos de
vida! Muito obrigado.
Francisco
Caruso
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
* O presente texto
corresponde à intervenção de Francisco Caruso em homenagem a José Leite
Lopes, realizada em quatro de novembro de 2005, no Centro Brasileiro de
Pesquisas Físicas - CBPF. É parte integrante também da Série Ciência e
Sociedade (CS010/05) editada pela Coordenação de Documentação e Informação
Científica do CBPF.
Sobre Leite Lopes
por
Cesar Lattes, Amós Troper,
Henrique Fleming, Ricardo
Ferreira, Sérgio Joffily
e João dos Anjos
LEITE LOPES E A FÍSICA NO BRASIL: UM TESTEMUNHO PESSOAL*
Leite Lopes é um exemplo da
flutuação estatística no Brasil. A cidade de Recife, no Estado de
Pernambuco, onde nasceu, é famosa por produzir notáveis pintores,
escritores, sociólogos e também físicos e matemáticos, que são igualmente
flutuações neste país.
Conheci Leite Lopes em
1943, na Universidade de São Paulo, onde veio fazer cursos avançados.
Juntamente com Sonja Aschauer – que mais tarde trabalhou com P.A.M. Dirac
em Cambridge – e também Walter Schützer, assistíamos às aulas de Gleb
Wataghin e Mário Schenberg. Isso ocorreu um pouco antes de minha ida para
Bristol para trabalhar com o grupo que estava desenvolvendo a técnica de
emulsão nuclear – C.F. Powell, G. Ochialini. Leite Lopes foi trabalhar com
W. Pauli e J.M. Jauch na Universidade de Princeton.
No ano de1943, em São
Paulo, Leite Lopes começou a trabalhar com Schenberg na teoria clássica do
elétron puntiforme. Alguns anos antes Dirac tinha dado uma importante
contribuição à teoria com a definição do campo de radiação como a
diferença entre metade do campo avançado e metade do campo retardado. Eu,
Schenberg e W. Schützer utilizamos este trabalho mais tarde para o estudo
de partículas com momentos dipolares. Leite veio de Recife, onde tivera
grandes mestres, como Luiz Freire. Após graduar-se Engenheiro Químico em
Recife, cursou a graduação em Física no Rio de Janeiro e depois de
trabalhar com Schenberg, em São Paulo, foi para Princeton. Ainda em 1943
conversamos sobre a possibilidade de formar um grupo de pesquisa na área
de física nuclear e de partículas no Rio.
Discutimos o assunto
novamente em 1946-1947, quando Leite Lopes já tinha sido indicado para a
cadeira de Física Teórica na Universidade do Rio de Janeiro e eu vim de
Bristol para expor as emulsões nucleares no Laboratório de Chacaltaya,
perto de La Paz, a 5.500 metros de altitude. Tais condições eram
comparativamente favoráveis à investigação dos raios cósmicos, já que o
Laboratório onde tinham sido feitas as primeiras observações dos píons
ficava a 2.800 metros de altura, nos Montes Pirineus, na França. Quando
mostrei a Leite Lopes os primeiros decaimentos π-µ obtidos em Chacaltaya,
ele ficou excitado ante a possibilidade de se ter encontrado um processo
fundamental – o que se confirmou após termos detectado aproximadamente
trinta desses decaimentos. Leite imediatamente começou a trabalhar nestas
questões e, de Bristol, eu lhe enviei os resultados de nossas medidas e
ele tentou verificar o esquema de Müller-Rosenfeld de uma mistura de
mésons vetoriais e mésons pseudo-escalares.
Lembro que quando voltei de
Chacaltaya, a caminho de Bristol, usei o microscópio de Costa Ribeiro na
Universidade Federal do Rio de Janeiro para observar a terceira emulsão
nuclear com um decaimento π-µ. Eu mostrei o evento para Guido Beck e Leite
e, para mim, este já era um processo fundamental.
Durante minha estada em
Bristol, em uma das visitas que fiz ao Rio, Leite e eu conversamos com o
representante brasileiro da Comissão de Energia Atômica das Nações Unidas,
Álvaro Alberto, para que ele conseguisse, junto à Comissão de Energia
Atômica dos Estados Unidos, uma autorização para que eu pudesse trabalhar
no Laboratório de Radiação de Berkeley, onde havia um acelerador para se
obter partículas alfa com 380 MeV. Isto dava 95 MeV para cada núcleon e,
se acrescentássemos a energia de Fermi, poderíamos produzir mésons. Leite
e eu verificamos tudo isso e concluímos que o processo era possível. O
Laboratório era bastante seletivo, mas Álvaro Alberto conseguiu, através
do Sr. B. Baruch, permissão para que eu trabalhasse lá. Leite Lopes me
encorajou a ir para Berkeley tentar verificar se os mésons poderiam ser
produzidos em colisões núcleon-núcleon. A detecção dos píons nestas
colisões foi obtida pela primeira vez em 21 de fevereiro de 1948, com
Eugene Gardner, que estava muito doente e faleceu pouco tempo depois. Só
então pudemos verificar claramente que os píons negativos eram absorvidos
pelos núcleos para produzir estrelas, enquanto os positivos decaíam em
múons. Esta descoberta teve enorme repercussão nos Estados Unidos e também
no Brasil, onde Leite Lopes escreveu artigos para jornais explicando sua
importância para o público.
Enquanto estava em
Berkeley, conheci Nelson Lins de Barros e começamos a discutir a
possibilidade de criar um Centro para a Física no Rio. Em dezembro de 1948
estive no Rio para uma visita, e juntos, Leite e eu, fomos conversar com o
João Alberto Lins de Barros, o irmão do Nélson. João Alberto era um
político muito influente no Brasil e apoiou fortemente a criação do Centro
Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).
Em 1949, Leite esteve no
Instituto de Estudos Avançados em Princeton e nos encontramos com os
físicos brasileiros Jayme Tiomno, W. Schützer e H.G. Carvalho para
discutir a Física no Brasil.
Com o meu retorno dos
Estados Unidos, João Alberto Lins de Barros obteve recursos para a
instalação provisória do Centro. Richard Feynman e Cecile Morette vieram
ao Rio e ministraram aulas em Junho-Julho de 1949. Juntamente com Leite,
convidei personalidades e professores universitários de outros estados do
país para se juntarem a nós como patrocinadores do novo laboratório, e eu
fui indicado por Leite Lopes e Costa Ribeiro para a recém-criada
disciplina de Física Nuclear na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Tiomno retornou de Princeton e se uniu a nós; Guido Beck, que estava na
Argentina e tinha visitado o Rio antes, veio definitivamente para o CBPF.
Nós batalhamos para obter recursos da iniciativa privada. Um jornalista,
Lourenço Borges, ajudou-nos com a divulgação. Um auxílio da iniciativa
privada nos permitiu construir um pequeno galpão para o nosso laboratório
no Campus da Universidade. O primeiro trabalho científico do CBPF foi
feito por Elisa Frota-Pessôa e Neusa Margem. Elas estabeleceram o primeiro
limite experimental no decaimento de mésons em elétrons. A UNESCO nos
enviou uma missão científica composta pelos físicos G. Occhialini, Ugo
Camerini, Gert Molière e pelo especialista em eletrônica e alto vácuo, G.
Hepp.
Nosso Embaixador na UNESCO,
Paulo Carneiro, nos ajudou a obter bônus da UNESCO para aquisição de
livros e periódicos científicos. Em 1951, tendo Álvaro Alberto como
presidente, foi criado o Conselho Nacional de Pesquisas do Brasil e o CBPF
recebeu recursos dele. Um Simpósio em Novas Técnicas de Pesquisa em Física
foi realizado no Rio e em São Paulo, e nós recebemos a visita de I.I.
Rabi, E.P.Wigner, S. de Benedetti, Emilio Segrè, John e Leona Marshall,
H.L. Anderson, R. Gans, Manuel Vallarta e muitos outros físicos.
Por essa ocasião, Rabi
sugeriu que, uma vez que São Paulo já possuía um gerador Van de Graaf,
deveríamos construir um acelerador de altas energias no Rio, como o que
existia em Chicago, para partículas de 400 MeV. A idéia foi aceita pelo
Conselho Nacional de Pesquisas e seu presidente, Álvaro Alberto, mas uma
crise política em 1954 interrompeu o projeto já em curso. Essa crise
afetou profundamente minha saúde, com reflexos até os dias de hoje.
Em 1960, Leite Lopes
tornou-se Diretor Científico do CBPF – posição anteriormente ocupada por
mim, por Oliveira Castro e por Guido Beck – e propôs à UNESCO a criação de
um Centro Latino-Americano de Física com o apoio dos governos
latino-americanos. O CLAF foi efetivamente criado alguns anos depois e
Leite indicou Gabriel Fialho para ser seu Diretor.
Leite Lopes, em minha
opinião, possui duas qualidades básicas: é um brilhante professor, que dá
lindas aulas e um cientista criativo que realizou um trabalho científico
original devido a sua excelente intuição. Sua contribuição mais importante
para a Física, creio, foi seu artigo de 1958, no qual propõe que a
constante de acoplamento dos bósons vetoriais com corrente fraca carregada
seria igual ao acoplamento elotromagnético. Isto já sugeriria a unificação
das forças eletromagnéticas e fracas já que, se o fóton, que é vetorial,
interage com a corrente elétrica na mesma intensidade que os bósons
vetoriais com as correntes fracas, eles pertencem, então, à mesma família.
Mas, eu me lembro que ele ficou perturbado com o alto valor da massa do
bóson vetorial obtido quando g = e, porque seria difícil entender um
multipleto com uma partícula tão pesada e um fóton de massa tão nula. De
qualquer modo, eu acho que ele foi o primeiro a sugerir a unificação
eletrofraca e a propor o bóson vetorial neutro e o experimento para
detectá-lo.
Após visitar o Rio em 1949,
a convite de Tiomno, que então estava em Princeton, Feynman foi convidado
novamente em 1951, por Leite Lopes, a visitar o CBPF por um ano, durante o
seu período sabático. Durante sua estada, Leite e Feynman trabalharam
juntos. Leite sempre procurou convidar bons físicos para o nosso centro,
por esta razão, organizou a Escola Latino-Americana de Física, no Rio de
Janeiro, em 1960.
Muitos alunos de outros
estados brasileiros e de outros países da América Latina foram atraídos
para o CBPF e muitos outros trabalharam sob a direção de Leite Lopes.
Leite tem grande capacidade
de trabalho, imaginação e vasta cultura; ele ama a pintura e poetas como
Rilke. Eu prefiro Kafka, que, embora não seja um poeta, é mais profundo.
Mas, acima de tudo, é um bom amigo. Posso dizer que, além de Gleb Wataghin
e Giuseppe Occhialini, Leite Lopes teve grande influência na minha
carreira científica.
Na ocasião do seu 70º.
aniversário, eu lhe desejo grande sucesso em suas várias atividades.
C.M.Lattes
Tradução: Márcia Reis
Supervisão: Amós Troper
*Tradução do texto Leite
Lopes: a Personal Testimony estabelecido pelos editores do livro “Leite
Lopes Festschrift a Pioneer Physicist in the Third World”, N.Fleury, S.Joffily,
J.A. Martins Simões e A. Troper a partir de depoimento gravado por César
Lattes.
JOSÉ LEITE LOPES: PERFIL RESUMIDO DE UM CIENTISTA-HUMANISTA*
O nome de José Leite Lopes
e o desenvolvimento da Física no Brasil estão profundamente imbricados.
Bacharel em Química Industrial pela Escola de Engenharia de Pernambuco, em
1939, sofreu grande influência de seu grande mestre Luiz Freire, cujas
aulas lhe transmitiam, segundo seu próprio testemunho, além das teorias
físicas, um sentimento de harmonia e de beleza das idéias científicas, do
seu encadeamento lógico e de suas ricas implicações.
Leite Lopes dedicou muito
de seu entusiasmo e de seu tempo a discutir e lutar para mudar as
condições de ensino e a própria universidade em nosso país, uma tarefa da
qual nunca abdicou, mesmo nos anos de exílio político. Essa sua dedicação,
que o caracteriza como um verdadeiro cientista-humanista, traduz-se de
forma muito ampla.
Além da importante obra
científica que produziu, foi figura fundamental na criação do Centro
Brasileiro de Pesquisas Físicas, do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico, da Universidade de Brasília e do Instituto de
Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Outra face deste
"educador teimoso" espelha-se na publicação de mais de vinte livros -
técnicos, didáticos e de divulgação científica - e de um sem-número de
artigos em jornais sobre política científica e as relações entre ciência e
sociedade. A leitura destes escritos comprova o quanto é raro encontrar
hoje pesquisadores com o perfil de José Leite Lopes.
Amós
Troper
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas – CBPF
* Extraído do livro
Ciência e Liberdade: escritos sobre ciência e educação no Brasil.
Organização de Ildeu de Castro Moreira. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ;
CBPF/MCT, 1998.
JOSÉ LEITE LOPES: PROTAGONISTA DA CULTURA BRASILEIRA*
Dizer que José Leite Lopes
é um grande físico, e que descobriu um dos pontos de apoio que permitiram
a Steven Weinberg receber o Prêmio Nobel, é ainda dizer pouco. Estaríamos
destacando apenas um dos muitos talentos deste imenso protagonista da
cultura brasileira, e que nem só da cultura brasileira é, já que criou sua
escola e seus seguidores também na França, para onde teve de ir, nos anos
de chumbo. Lá, foi muito bem-vindo, e o presidente Giscard D’Estaing o
nomeou professor da Universidade de Estrasburgo. Na época, comparando-o a
Garibaldi chamei-o de “Físico dos Dois Mundos”.
Neste livro, que poderia
ser chamado de “ABC da Inteligência”, Leite Lopes fala sobre uma grande
variedade de tópicos, breves monólogos classificados em ordem alfabética,
pinceladas que vão, pouco a pouco, compondo o quadro do pensamento e da
ação do autor. Não por acaso, Leite Lopes é também pintor admirado. Essa
brilhante iniciativa de Francisco Caruso vem mostrar uma outra face do
estilo do autor, até aqui predominantemente épico em seus livros e,
sobretudo, em suas maravilhosas conferências. Muito bem editado, com
numerosas referências cruzadas, está tão próximo de um hipertexto quanto
um livro impresso pode ser.
Deverá servir tanto como
leitura de cabeceira, deliciosa, infinitamente renovável (pois a leitura
de cada verbete se beneficia da leitura dos outros), quanto como ponto de
partida para pesquisas de nossa época, pois Leite Lopes sabe ser profundo,
original e, sobretudo, claro. Como água do pote, diria Monteiro Lobato.
Henrique Fleming
Universidade de São Paulo
*Extraído do livro José
Leite Lopes: idéias e paixões. Organização e edição de Francisco Caruso.
Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF/MCT, 1999.
JOSÉ LEITE LOPES – UM DEPOIMENTO PESSOAL*
José Leite Lopes faz parte
daquele pequeno e seleto grupo de brasileiros que fizeram Ciência de alta
qualidade bem antes da existência oficial de atividade científica no
Brasil – que podemos datar de 1951, com a fundação do CNPq e da CAPES.
Leite formou-se como
Químico Industrial em 1939, na antiga Escola de Engenharia de Pernambuco.
Dois dos seus Professores foram então fundamentais para seu posterior
desenvolvimento: os Professores Luiz de Barros Freire e Osvaldo Gonçalves
de Lima.
Este último conseguiu uma
bolsa da Fábrica de Doces Peixe, com auxílio da qual Leite fez o
Bacharelado em Física na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de
Janeiro. 1942, Leite passou-o em São Paulo, trabalhando com outro grande
físico pernambucano, Mário Schenberg, e em 1943 foi fazer seu Doutoramento
em Princeton, com bolsa americana.
Costumo dizer que Leite é o
único Físico brasileiro que descende, direta e formalmente, de um dos
fundadores da Mecânica Quântica, Wolfgang Pauli, pois foi com Pauli que
Leite obteve o seu Ph.D., em 1946.
Voltando ao Brasil em 1947,
Leite não encontrou, mesmo no Rio de Janeiro, condições apropriadas para
desenvolver um Centro de investigações que combinasse Ensino e Pesquisa.
O clima da época fica claro
se eu lembrar que, ao propor ao Reitor da então Universidade do Brasil
tempo integral e dedicação exclusiva para os Professores, ouviu como
resposta que “os Professores no Brasil já são muito bem pagos”.
Felizmente, 1947 foi também
o ano em que César Lattes – que fizera amizade com Leite ao passar pelo
Rio de volta da Bolívia, onde fora expor suas chapas fotográficas aos
raios cósmicos nas alturas dos Andes – tornou-se célebre por suas
descobertas dos mésons ∏ e µ. Em 1949, com Lattes já de volta da sua
viagens, Leite conseguiu fundar o CBPF, uma Instituição privada com
mandato universitário para oferecer Cursos de Pós-Graduação.
Apesar de ser pernambucano
como Leite, e tendo ouvido falar muito das suas façanhas como Físico,
mesmo como estudante secundário, em 1944-45, só conheci pessoalmente Leite
durante a 7ª Reunião Anual da SBPC, que ocorreu no Recife, em Julho de
1955. Foram Leite e Jacques Danon que me aconselharam a pedir uma Bolsa de
Pesquisa no CNPq, para trabalhar com Danon no CBPF.
Mas quando cheguei ao
Centro, em Março de 1957, Leite estava em Pasadena, convidado por seu
amigo Richard Feynman. Somente em Agosto daquele ano de 1957 voltei a me
encontrar com Leite, mas a espera valeu a pena, porque, na sua volta da
Califórnia Leite concordou em dar um curso de Mecânica Quântica para
Químicos, na Cadeira do Professor Augusto A.L.Zamith da ENQ, nossa vizinha
na Avenida Pasteur. Para mim o curso foi estupendo, creio mesmo que nunca
aproveitei outro igual, porque, além do seu profundo conhecimento de
Física, Leite é um didata excepcional. Suas aulas são vivíssimas, com
aportes espirituosos apropriados. É impossível, tendo-se uma base razoável
de Matemática, não se aprender alguma Mecânica Quântica com Leite. Isto,
aliás, fica evidente pela leitura dos 5 ou 6 livros didáticos que
escreveu, em português, inglês e francês.
Todos sabem que Leite não
tem nada do cientista estreito, unicamente concentrado em suas pesquisas.
Ele sempre foi um homem que se preocupa com o Brasil, com a ciência
brasileira, com a Paz Mundial.
Ao longo desses 50 anos de
conhecimento e amizade, são muitas as situações e histórias que tive a
sorte de compartilhar com Leite. Permitam-me contar uma, que ocorreu na
sua visita ao Recife, em Fevereiro de 1986.
Dias antes, conversando com
minha mãe, que tinha então 91 anos de idade, mencionei a próxima vinda de
Leite ao Recife. Ela então me disse:
- Conheci muito a mãe dele,
Beatriz.
E virando-se para sua irmã,
minha tia Ruth, acrescentou:
- Lembra-se dela? Com
cabelos longos, quase louros!
Ora, a mãe de Leite
falecera poucos dias depois de dar à luz a Leite, em Outubro de 1918,
vítima da Grande Gripe Espanhola.
O que aconteceu então foi
que, ao contar o episódio a Leite, este fez questão de conhecer minha mãe,
justificando:
- Os neurônios do cérebro
dela contêm possivelmente as últimas evidências físicas da minha mãe!
E assim foi feito, e Leite
conheceu aquela pessoa que conhecera sua própria mãe, 70 anos antes, e que
guardara sua imagem para sempre...
É para mim motivo de
orgulho ser amigo de José Leite Lopes. Devo-lhe minha carreira como
Físico-Químico, mais do que a qualquer outra pessoa. Além das horas, dias
e anos cheios de conversas proveitosas, alegria e amizade.
Ricardo
Ferreira
DQF/Universidade Federal de Pernambuco
Recife, Pernambuco, Janeiro de 2006
JOSÉ LEITE LOPES, UM PIONEIRO DA FÍSICA NA AMÉRICA LATINA*
A Faculdade Nacional de
Filosofia atingiu sua maioridade em 1948, quando um de seus ex-alunos,
pela primeira vez, conquistava uma cátedra. Era Leite Lopes que assumia o
cargo com espírito de mudança. No seu discurso de posse, intitulado
“Universidade e pesquisa: os nossos problemas”, ele focalizou as
dificuldades na realização de pesquisas e cobrou a implantação do regime
de tempo integral. A necessidade de sangue novo já era reconhecida por
membros da congregação, como se observa no discurso de recepção
pronunciado pelo Professor Joaquim da Costa Ribeiro:
“(...) possui, em alto
grau, uma qualidade rara e muito preciosa; a qualidade de levar a sério as
coisas de que se ocupa e fazer bem feito tudo aquilo que faz. Modesto e
discreto, mas não conformista e não conformado, sabe dizer, quando é
preciso, as verdades menos agradáveis, sempre, porém, de maneira elegante,
como um gentleman, e muitas vezes com delicioso sense of humor
(...)”.
Leite Lopes convenceu Costa
Ribeiro a criar a cátedra de Física Nuclear, na FNFi, a fim de fixar Cesar
Lattes no Rio de Janeiro, possibilitando a realização de antigo sonho de
um grupo de físicos: a criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.
O CBPF, vivendo com fundos da Confederação Nacional das Indústrias, marcou
o início da mudança do centro de gravidade da física brasileira para o Rio
de Janeiro. Esta foi a alternativa que Leite, juntamente com seus colegas,
encontrou para desenvolver grande parte da pesquisa, do ensino e da
política científica de nosso País.
Após a criação do Centro
Latino Americano de Física, CLAF, como um dos diretores da Escola Latino
Americana de Física ao lado de J.J.Giambiagi e M. Moshinsky, Leite se
empenhou no desenvolvimento da Física na América Latina.
As contribuições
científicas do Professor José Leite Lopes cobrem uma grande variedade de
campos da Física. Dentre elas destaca-se a predição da existência de
bósons vetoriais neutros como veículos da interação fraca. Leite sugeriu,
em 1958, a unificação das forças eletromagnéticas com as forças fracas,
postulando a igualdade das constantes de acoplamento (g = e), acarretando
a primeira avaliação da massa dos bósons vetoriais.
Minha primeira experiência
como aluno do Professor Leite Lopes aconteceu no 3º ano da Faculdade, no
curso de Estrutura da Matéria. Nesta ocasião pude constatar que a
importância de Leite para o ensino da Física não se limitava à qualidade
de seus textos didáticos, mas à fluência de suas preleções que realçava o
conhecimento intuitivo dos fatos físicos antes de introduzir as suas
representações matemáticas.
Em 1969, impedido de
trabalhar para o seu País, Leite escolheu a França como local onde aplicar
seus conhecimentos e sua imaginação criadora. Aceitou os convites do
Centre de Recherches Nucléaires (CRN) e da Université Louis Pasteur de
Strasbourg. Lá testemunhei a criação, pelo Professor Leite Lopes, do grupo
de Fisica Teórica de Altas Energias com vários alunos europeus e alguns
brasileiros. Mesmo distante, Leite continuava presente ao desenvolvimento
da física na América Latina, seja em suas visitas científicas ao México,
Venezuela e outros países, como recebendo pós-docs e professores em ano
sabático. Foi durante a estada do Professor Garcia Canal da Universidade
de La Plata em 1978 que germinou a criação da atual “Rede Latino-
Americana de Fenomenologia”.
Sergio
Joffily
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas -CBPF
ENCONTROS E DESENCONTROS COM LEITE
LOPES: DE COMO CONHECI E QUASE ME TORNEI DISCÍPULO DO MESTRE
*
Corria o ano de 1969.
Acabara de me formar em Física na UFRJ e começara a fazer o mestrado no
CBPF, onde já havia feito uma iniciação científica com Elisa Frota Pessoa.
Após terminar os cursos básicos, precisava escolher um orientador e um
tema para a tese de mestrado. Havia ficado impressionado com o curso sobre
Simetrias ministrado por Leite Lopes e com a Física de Partículas
Elementares, campo que explodia de novidades e no qual havia muitas
perguntas sem respostas. Fui procurar Leite que, simpático e caloroso como
sempre foi, aceitou ser meu orientador. Deu-me três artigos sobre álgebra
de correntes para ler e pediu que voltasse dali a 15 dias para
conversarmos. Nesse meio tempo a situação política do país se deteriorou.
Estávamos em 1969, em plena ditadura e vivendo sob o impacto do AI-5.
Embora o CBPF fosse uma Sociedade Civil e Leite estivesse, em princípio,
ao abrigo de injunções políticas, amigos o avisaram de que deveria deixar
o país se não quisesse ser preso.
Quando voltei a
procurá-lo tomei conhecimento de que estava indo embora do Brasil.
Desanimado, ainda perguntei quem mais poderia me recomendar como
orientador. Seu conselho foi que deixasse o país, que fizesse um doutorado
no exterior. Com sua carta de recomendação, consegui uma bolsa de
Cooperação Técnica da Embaixada da França. Terminei 1969 em Paris,
matriculado na Universidade de Orsay, e Leite na Universidade de Pittsburg,
como pesquisador visitante.
Embora tenha perdido a
oportunidade de ser orientado por Leite Lopes nossos destinos se cruzaram
novamente vinte anos mais tarde quando, Diretor do CBPF, me convidou para
ajudá-lo na Vice-Diretoria, me iniciando nas artes da política científica,
atividade que dividi com a pesquisa durante vários anos como Vice-Diretor
de Amós Troper e depois como Diretor do CBPF. A lembrança da postura
independente de Leite e seu espírito de luta incansável pelo CBPF me deram
forças para enfrentar e superar as crises que a instituição viveu na sua
passagem para o MCT, no início dos anos 2000, ameaçada de ser absorvida
numa universidade ou de perder a sua pós-graduação. Assim, seus
ensinamentos muito me influenciaram e de alguma forma me considero um
discípulo do mestre.
Ao longo dos anos de
convivência no CBPF pude conhecer Leite Lopes e suas diversas facetas: o
extraordinário e intuitivo pesquisador que propôs a existência do bóson
neutro Z0 e fez uma primeira estimativa da massa dos bósons W, supondo a
igualdade do acoplamento das forças fracas e eletromagnéticas. O cientista
político que escreveu dezenas de livros sobre ciência e sociedade e sobre
política científica. O professor brilhante que a todos magnetizava em suas
aulas. O educador que ajudou a criar centros de pesquisa e universidades.
O administrador visionário que não se contentava em administrar o dia a
dia da instituição, mas que buscava projetos científicos inovadores. O
artista sensível que pintava catedrais. O amigo generoso. O homem que
amava todas as mulheres...
Que falta nos fará o
mestre!
João
dos Anjos
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF
A
Arte de Leite Lopes
LEITE LOPES: O
POLIEDRO E O ALBATROZ
Leite Lopes é uma figura poliédrica, multifacetada.
Físico teórico dos mais
brilhantes de sua geração, é também um grande professor que através de
seus livros influenciou toda uma linhagem de cientistas. Tem sido,
ademais, ao longo de sua vida, agitador cultural e político, combatendo o
bom combate visando a implantação de um ambiente de pesquisa científica no
Brasil – chave para a verdadeira emancipação nacional.
Leite Lopes é um apóstolo
do homem total concebido no Iluminismo, interligando o trabalho
científico, político e artístico numa atividade coerente e unificada.
A sua pintura não é um
simples pendant de sua atividade científica; antes, se constitui numa
parceira entre arte e ciência, visando exaltar a civilização e a vida,
bradando contra a “desespiritualização” moderna e a morte.
A pintura de Leite Lopes
possui essencialmente dois leitmotiven – as jangadas e as catedrais
que se interpenetram – a refletirem experiências fundamentais de sua vida:
a sua infância e adolescência passadas no Recife e o seu exílio na
maturidade em Strasbourg.
Nos seus trabalhos
abstratos, as cores vivas refletem a luz firme do Recife, notando-se aí
uma furtiva lembrança da fase parisiense de seu conterrâneo Cícero Dias.
Não se pense que seus
quadros se bastam a exibir um colorismo fácil e superficial. No cadinho da
impaciência e do desespero, pelo fracasso da sonhada Utopia, Leite Lopes
forja uma Obra em que se insinuam maravilhas e mistérios do mundo dos
vivos, vistos das alturas como por um albatroz baudelaireano.
Amós
Troper
Nota: Texto
publicado originalmente no Catálogo da Exposição Construção e
desconstrução: o mundo cósmico de Leite Lopes, realizada pela Academia
Brasileira de Ciências de 28 de outubro a 21 de novembro de 2003 com a
curadoria de Celeste Nogueira Campos.
ESPAÇOS DA CATEDRAL IMAGINÁRIA: A
imaginação do espaço na pintura do Professor Leite Lopes*
A produção artística do
Professor Leite Lopes inclui desenhos e pinturas que ele vem realizando
desde os anos cinqüenta.
“Era outono, e as folhas
caíam”, nos disse, de modo poético, ao referir-se aos primeiros trabalhos.
Ao selecionarmos as
obras apresentadas nesta exposição, escolhemos uma pequena parte de um
acervo numeroso e definimos o seguinte critério: destacar similitudes
formais na produção pictórica através de uma “leitura” do espaço
imaginário.
Na arte, o espaço
imaginário é o lugar de emergência da experiência estética. Mesmo que
o artista se expresse de modo realístico ou apresente alguma analogia com
as coisas do mundo e da natureza, a espacialidade do objeto de arte
realiza-se, sempre, por uma metamorfose.
A imaginação requer o
trabalho do corpo: cristalizada pelo gesto, traz ao mundo novos seres –
nem figurativos, nem abstratos. Eles são seres de imagem: têm vida
e linguagem próprias.
No conjunto de obras do
Professor Leite Lopes, a temática se diversifica: paisagens, casario,
figura humana, madonas, cristos, catedrais e vitrais ...
Contextualizando seus
trabalhos, observamos que os vários temas se articulam numa rede poética.
Essa rede é extensa e seus pontos de contacto são tessituras espaciais;
nelas, as imagens se completam à maneira das peças de um vitral.
Recortes de vidro em
metamorfose, a matéria desse espaço ilumina-se; fixa e des-fixa áreas de
cor, mostra entre-espaços que transitam nas várias obras, realizando um
percurso pelos meandros de uma catedral imaginária; ela própria,
uma peça de vitral.
O Professor Leite Lopes
morou em Strasbourg, perto da catedral; mas em seus quadros a catedral é
uma imagem onírica, imagem que ele desconstrói, continuamente, e
rearticula em formas imersas em luzes e cores, quase sempre noturnas.
Expressas por texturas
pastosas ou através de regiões menos densas, as cores puras são
contornadas por um percurso de linha, que separa e aproxima seres de uma
fábula revivida entre arcos e ogivas.
Desse jogo surgem outras
catedrais, paisagens, árvores, cristos, madonas, luas, jangadas e uma
infinidade de seres de imagem, localizados no mundo cromático, em que o
vitral é um símbolo.
Esse símbolo é
privilegiado no plano sensível, é traduzido pictoricamente no espaço com
valor de lugar; e o lugar é a região onde os azuis, amarelos e
vermelhos percorrem na noite os passos da paixão humana: trilhas onde o
“espaço” é tátil.
Em alguns momentos, o
pintor acentua a verticalidade da catedral imaginária – ela é um vulto na
névoa. Em outros, ao desconstruí-la, ele direciona flechas, ogivas,
torres; dilui os vitrais, dando simultaneidade a imagens existentes em
tempos diversos.
No trabalho intitulado
“La Cathédrale Engloutie” – reproduzido na capa deste catálogo – a
catedral é um frontispício vermelho, deslizante – em descese – entre luzes
pálidas e águas sombrias.
A fachada surge três
vezes no espelho das águas. É, simultaneamente, catedral, labareda, flor e
pétala vermelha, figura de vitral...
Sob o fulcro de luzes
distantes, ela desce às águas antigas que um dia umedeceram os arcos das
catedrais da Idade Média – e flui nas mesmas águas que tocaram, pela
primeira vez, a clareza da pedra.
A pedra, a manhã ...
desfizeram-se num tempo anterior – no tempo da noite – que permanece na
catedral onde dormem as luzes que tingiram seus reflexos na névoa.
Fachada, ogiva, luz,
vitral, ela ressurge arquetípica nos espaços diluídos nas tintas de
“Universo em Vermelho”.
Aqui, não há analogia
visual, mas ela habita as luzes de um vermelho-vitral – a
inquietude de um vermelho surgido no calor da moldagem da pasta de vidro –
que recupera e atualiza os sentidos velados nas águas e espaços de uma
catedral submersa.
Nos movimentos destas
imagens, aprendemos: não contemplamos uma catedral, suas luzes e sombras
nos acolhem de súbito em recantos íntimos.
E, diante da catedral submersa
– uma chama entre bruma e água –, perguntamos:
Que infinito iluminou-se primeiro?
o céu?
o oceano?
E, ao visitante desta
mostra, sugerimos iniciar seu percurso pela inqüietude poética enraizada
no espaço imaginário da “Catedral Submersa”.
Mirian de Carvalho
Associação Internacional de Críticos de Arte
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, outubro de
1998
*Extraído do catálogo
da exposição ESPAÇOS DA CATEDRAL CATEDRAL IMAGINÁRIA. Realizada em Outubro
de 1998. Curadoria, Arte Gráfica e Edição de Mirian de Carvalho &
Francisco Caruso. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas -
CBPF/MCT.
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“Universo em Vermelho –
1973 |
“Eclipse” - 1975
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“Silêncio” - 1956
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“La Cathédrale en Feu”-1983
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“Catedrais na Névoa” –
1997 |
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Sem título – 1979
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Sem título – 1985 |
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Coleção Amós Troper
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Coleção Amós Troper
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“O Chão do Vitral” –
1966 |
“Vitral Brasileiro”
-1974 |
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Pintura em Porcelana –
s/d |
A Ceia – (pintura em
porcelana s/d) |
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Vídeo
"Em fins de 2003, em um simpósio realizado na USP em homenagem ao Michel
Paty, o Leite Lopes fez uma palestra muito interessante e emocionante,
relembrando aspectos de sua trajetória durante o regime militar. Esse
simpósio foi gravado, e sairá agora um vídeo documentário sobre o mesmo.
Eu solicitei ao realizador do documentário que separasse a fala do Leite e
disponibilizasse na Internet. O vídeo só com a fala de Leite está
disponível abaixo."
Olival Freire Jr.
Instituto de Fisica - UFBa
Clique na imagem para assistir a palestra
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Notas na Imprensa
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• Comunidade
científica brasileira perde um de seus expoentes
• Declaração
do ministro Sergio Rezende sobre o físico José Leite Lopes |
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• Físico
José Leite Lopes morre aos 87 anos no Rio
• Físico
José Leite Lopes articulou criação de instituições de pesquisa |
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• Morre
José Leite Lopes, físico e pioneiro da ciência
• Frase
• Repercussão
• Memória:
Um homem apaixonado, sobretudo
• Frase |
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• Morre
José Leite Lopes, um dos maiores cientistas brasileiros |
 |
• Morre
José Leite Lopes, físico e pioneiro da ciência |
 |
• José
Leite Lopes: vida dedicada à física brasileira |
 |
• Morre
fundador do Centro Brasileiro de Pesquisa Física do Rio de Janeiro
• Físico
está sendo velado no CBPF |
 |
• Morre
o físico José Leite Lopes
• Morre
aos 87 anos, no Rio, o físico Leite Lopes
• Últimas
imagens |
 |
• José
Leite Lopes, um ícone da ciência brasileira |
 |
• A
ciência perdeu no dia 12 de junho um de seus expoentes, o físico José
Leite Lopes. |
 |
• Falece
um dos pioneiros da Física brasileira |
 |
• A
morte de José Leite Lopes, fundador do CBPF |
 |
• Morre
José Leite Lopes, um ícone da ciência brasileira |
 |
• Morre
o físico brasileiro José Leite Lopes |
 |
• Físico
José Leite Lopes morre aos 87 anos no Rio |
 |
• Físico
José Leite Lopes morre aos 87 anos no Rio |
 |
• José
Leite Lopes: um físico que não aceitava trivializar o conhecimento.
Uma entrevista especial com o professor Mario Novello |
 |
• Comunidade
científica brasileira perde um de seus expoentes |
 |
• Ciência
se despede de Leite Lopes |
 |
• Morre
José Leite Lopes |
 |
• Sergio
Rezende: “Leite Lopes, brasileiro dos mais ilustres de toda nossa
história, foi
essencial para o estabelecimento do sistema de C&T no
Brasil”
• José
Leite Lopes, físico e pioneiro da ciência
• Físicos
renomados lamentam perda de Leite Lopes
• Um
homem apaixonado, sobretudo, artigo de Francisco Caruso |
 |
• Brasil
perde José Leite Lopes, ícone da ciência
• Morre
o físico José Leite Lopes |
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• Físico
José Leite Lopes morre aos 87 anos no Rio de Janeiro |
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• Morre
aos 87 anos, no Rio, o físico Leite Lopes |
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• Morre
o físico José Leite Lopes |
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• Morre
o físico José Leite Lopes |
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• Morre
físico brasileiro José Leite Lopes |
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• Morre
físico brasileiro José Leite Lopes |
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Agradecimentos:
Nossos agradecimentos a
todos que contribuíram para a realização deste projeto, em especial:
AMÓS TROPER
FRANCISCO CARUSO
RICARDO FERREIRA
SÉRGIO JOFFILY
CELESTE NOGUEIRA CAMPOS
MARIA DO SOCORRO COSTA DO
VALE
ROSÂNGELA CASTRO
Expediente:
CBPF – Centro Brasileiro de
Pesquisas Físicas
MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E
TECNOLOGIA
Ricardo Magnus Osório
Galvão
Diretor
Márcia Reis Brandão
Concepção e Edição de
Conteúdo
Denise Coutinho de A. Costa
Coordenação de Atividades Técnicas – CAT/CBPF
Núcleo de Comunicação
Social – NCS/CCI/CBPF
Realização
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