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Prof. José Leite Lopes

 

1918 - 2006
 

Apresentação

Em meados de 1988, quando estava trabalhando no JET (Joint European Torus), em Abingdon, Inglaterra, recebi um telefonema bem tarde de uma noite. O soar da campainha me assustou, pois um telefonema tão tarde só poderia ser do Brasil e, possivelmente, trazia notícias urgentes e desagradáveis. Ao atender, ouvi aquela voz agradável com sotaque nordestino: “Galvão, aqui é o Leite, como vai?”.

Havíamos nos conhecido há apenas cerca de um ano, em função das discussões sobre a criação do Laboratório Nacional de Plasmas, que estava sendo promovida pelo Ministro Renato Archer, mas entre nós já havia surgido uma grande sintonia, apesar de nossas personalidades bastante distintas.

“As discussões sobre o Laboratório estão emperradas; o pessoal de São Paulo não abre mão de localizá-lo lá. Por isso eu o estou convocando para voltar logo e vir para o CBPF. Você aceita?” Dias depois lhe telefonei para informar porque não poderia aceitar sua oferta naquela ocasião. Ele me xingou carinhosamente, como era de seu estilo, para depois concluir, “mas as portas continuam abertas para você”.

Em julho de 2004, quando entrei no auditório para a cerimônia de minha posse como Diretor do CBPF, ele já estava lá, sentado numa cadeira de rodas. Ao cumprimentá-lo, a primeira coisa que me disse foi “Você demorou muito para atender minha convocação”. Depois concluiu “mas estou contente que tenha vindo; procure tratar esta casa com respeito e grande dedicação”.

Este curto testemunho exemplifica a personalidade deste cientista e humanista excepcional, que sempre foi capaz de associar com habilidade um certo tom de irreverência e humor a afirmações sérias e plenas de significado científico e ético. Ele soube usar essa mistura bem balanceada de irreverência e seriedade para divulgar a ciência e discutir os problemas que afligem nossa sociedade com raro brilhantismo, sempre atraindo grandes audiências em suas apresentações.

No ano passado tive a felicidade de desfrutar momentos preciosos de conversas privadas com ele, algumas vezes no CBPF e outras em sua casa, durante almoços memoráveis, tanto pela qualidade da comida e do vinho como pelos temas abordados. A memória já não lhe era tão fiel e ele estava um tanto desiludido com seu estado de saúde e com o rumo da política em nosso País. Mas o que mais lhe afligia era não poder mais fazer ciência como antes. Sua preocupação com o desenvolvimento científico do Brasil era uma constante. Ele me desafiava, com aquela entonação arrastada que usava quando queria dar um tom de provocação em suas manifestações: “Galvão, você que vem da prestigiosa USSSSP, me indique o nome de pelo menos um jovem físico brasileiro que esteja de fato despontando no cenário científico Internacional”. E acrescentava, “Será que não estamos afogando a criatividade de nossos jovens talentos?”.

Eu não sabia e ainda não sei como responder corretamente a esta pergunta. Mas tenho certeza de que o exemplo que ele nos deixou, como cientista, professor e humanista, será uma semente que frutificará belamente no espírito de jovens cientistas brasileiros.

Ricardo Galvão
Março de 2006


Pequena Autobiografia

Após a minha graduação como Químico Industrial (Recife, 1939), como Bacharel em Física (Rio de Janeiro, 1942) e como Doutor em Física, PhD (Princeton, 1946), fui nomeado Professor de Física Teórica (Faculdade Nacional de Filosofia, 1946) cargo que mantive até a minha cassação pelo regime militar (1969). Fui sucessivamente Membro do Institute for Advanced Study (1949-1950), Secretário Científico da 1a. Conferência Internacional de Energia Atômica (ONU, 1955), Senior Research Fellow no California Institute of Technology (1956-1957), Professor Visitante na Faculdade de Ciências de Orsay (1964-1967), na Carnegie-Mellon University (1969-1970), Professor Titular na Universidade de Strasbourg (1970-1986), Vice-Diretor do Centro de Recherches Nucleaires, Strasbourg (1975-1978), Diretor do CBPF (1960-1964, 1986-1989).

Sou membro da Academia Internacional de Humanismo (Buffalo, N.Y.), da Academia de Ciências do Terceiro Mundo (Trieste, Itália), da Academia de Ciências da América Latina, ganhei a Medalha da Universidade de Strasbourg (1986) e fui agraciado com a Ordem Nacional do Mérito Científico (Brasília, 1994) assim, como com a Medalha Nacional de Ciências, Alvaro Alberto (1989).

Além de trabalhos originários de pesquisa científica e de filosofia da física, entre os quais o que provei a existência do boson Zo e a unificação das forças eletromagnéticas e as forças fracas (1958), publiquei vários livros adotados internacionalmente como Fondements de la Physique Atomique (Hermann, 1967), Lectures on Symmetries (Gordon & Breach, 1969) e Gauge Field Theories (Pergamon Press, 1981, 1983), Theorie Relativiste de la Gravitation (Masson, 1993) e Sources et Évolution de la Physique Quantique (em colaboração com B. Escoubès, Masson 1995).


Vida e Obra
por Francisco Caruso

SAUDAÇÃO A JOSÉ LEITE LOPES*

É um enorme prazer poder, de público, prestar uma homenagem ao meu querido mestre e amigo Prof. José Leite Lopes, por ocasião de seu octogésimo sétimo aniversário e gostaria de agradecer ao meu amigo Helayël por essa oportunidade.

Conheci pessoalmente o Leite em 1981, sendo seu aluno aqui no CBPF no primeiro curso que ele deu no Brasil, após sua volta do exílio. Foi um curso de Mecânica Quântica e, desde então, tenho aprendido a admirá-lo em 24 anos de convívio.

Leite Lopes, pernambucano de Recife (talvez devesse dizer "do" Recife), nascido em 28 de outubro de 1918, é hoje um ícone da Ciência e da Cultura no Brasil; um daqueles brasileiros que nos fazem sentir orgulho de nossas origens. Leite deveria servir de exemplo para os que estão se formando, principalmente, quando os caminhos imediatistas da ciência no país, delineados por uma crença difusa na indústria dos papers, turvam a perspectiva de virmos a ter jovens cientistas do seu porte. Se devêssemos defini-lo com apenas um adjetivo, escolheríamos apaixonado. Sua paixão é transcendente; ultrapassa em muito as fronteiras da Ciência, espalhando-se pela Educação, pela Cultura, pelas Artes e, porque não dizer, pelas mulheres e pela vida. É essa paixão, que se nutre de um intelecto vivaz contagiante  a ponto de nos fazer querer dela compartilhar sempre mais  o motor da dedicação de toda sua vida à criação de um ambiente propício ao desenvolvimento científico no Brasil, muitas vezes opondo-se ao poder de forma contundente.

Seu humanismo reflete-se em tudo que faz: na sua permanente preocupação com o papel ético e social do cientista, na formação científica dos jovens, na sua pintura, quando se emociona recitando Rilke em alemão ou dando uma entrevista sobre o tema "amor". Um retrato cubista desse humanista está traçado no livro Idéias e Paixões, que tive o prazer de preparar, com o apoio de Amós Troper, como presente de aniversário de 80 anos do Leite.

Talvez seja oportuno relembrar brevemente a trajetória acadêmica de José Leite Lopes. Ele concluiu seus estudos secundários no Colégio Marista, em sua cidade natal, em 1934. Bacharelou-se em Química Industrial na Escola de Engenharia de Pernambuco, em 1939. Influenciado por seu grande mestre Luiz Freire, que marcou seu espírito de professor de tal modo que o tempo não apagou essa influência, Leite deu início aos seus estudos de Física no Rio de Janeiro, para onde veio com uma bolsa de estudos das indústrias Carlos de Brito, do Recife, por indicação do Professor Osvaldo Gonçalves de Lima.

Em 1940, ingressou no Curso de Física da Faculdade Nacional de Filosofia, Rio de Janeiro, concluindo-o em 1942. Nesse mesmo ano trabalhou alguns meses, a convite do Professor Carlos Chagas, no Instituto de Biofísica, com uma bolsa Guilherme Guinle. Em 1943, com uma bolsa da Fundação Zerrener, trabalhou no Departamento de Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, assistindo aos cursos de Gleb Wataghin e Mario Schenberg. Com uma bolsa do Governo dos Estados Unidos, dirigiu-se à Universidade de Princeton, onde trabalhou com J.M. Jauch e fez sua tese de doutorado (Ph.D.), sob a orientação de Wolfgang Pauli (Prêmio Nobel de Física), durante os anos de 1944 e 1945. Em outubro de 1945, aos 27 anos, foi nomeado Professor de Física Teórica e Superior da Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro e tomou posse na cátedra em 1946. Em 1948, fez concurso para cátedra de Física Teórica e Física Superior da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e recebeu o grau de Doutor em Ciências pela mesma Universidade. Em janeiro de 1949, juntamente com Cesar Lattes, e com o apoio do Ministro João Alberto Lins de Barros, de Nelson Lins de Barros e de Henry British Lins de Barros, fundou o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Em 1949, ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim e, a convite de Oppenheimer, tornou-se membro do Instituto de Altos Estudos de Princeton.

Entre 1955 e 1964, foi Diretor da Divisão de Ciências Físicas do Conselho Nacional de Pesquisas. Nos anos de 1956 e 1957, a convite de Richard Feynman, foi Pesquisador Visitante no California Institute of Technology. Ocupou vários cargos de chefia e de administração científica no CBPF, no CNPq e na Universidade do Brasil.

Em 1960, organizou a 2a. Escola Latino-Americana de Física no Rio de Janeiro e sugeriu ao Conselho Técnico-Científico do CBPF que propusesse ao Ministério das Relações Exteriores e à UNESCO a criação de um Centro Latino-Americano de Física. Entre 1962 e 1964, foi organizador e coordenador do Instituto de Física da nova Universidade de Brasília. Até 1964 foi membro do Conselho de Curadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), onde apresentou conferências sobre energia atômica. Nesse ano, aceitou convite para ser Professor Visitante da Faculdade de Ciências de Orsay, Universidade de Paris, na qual permaneceu até março de 1967. Em 1969, foi aposentado compulsoriamente da Universidade Federal do Rio de Janeiro por decreto governamental baseado no AI-5; em conseqüência, aceitou convite da Universidade Carnegie-Mellon, em Pittsburgh, para onde se transferiu como professor visitante, durante o ano acadêmico 1969-1970. Foi ainda demitido do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas por portaria do Presidente desta Instituição. Entre 1970 e 1974, foi professor visitante da Universidade de Strasbourg I, Université Louis Pasteur e, no ano em que chegou, fundou, com Michel Paty e outros colegas, os seminários sobre os Fundamentos da Ciência, que, mais tarde, deram origem à revista Fundamenta Scientiae, que, infelizmente, já não existe mais. Em 1974, foi nomeado, excepcionalmente, Professor Titular da Universidade Strasbourg I, pelo Presidente da República Francesa Giscard D’Estaing. De 1975 a 1978 foi Vice-Diretor do Centro de Pesquisas Nucleares de Strasbourg (Centre de Recherche Nucléaires, CNRS) e Diretor de sua Divisão de Altas Energias. Voltou ao Brasil, em 1981, para o Centro que havia fundado, mas não em definitivo. Somente em 1986, após ser convidado pelo então Ministro da Ciência e Tecnologia, Renato Archer, para dirigir o CBPF, retornou de vez ao Brasil.

José Leite Lopes é autor de uma vasta obra científica, com mais de 80 trabalhos publicados, dentre os quais destacamos seu importante artigo de 1958, na prestigiosa revista Nuclear Physics, no qual prediz a existência de bósons vetoriais neutros, juntamente com bósons carregados, como veículos da interação fraca, sugerindo a unificação das forças eletromagnéticas com as forças fracas e postulando a igualdade das constantes fundamentais das interações fraca e eletromagnética. A partir desta hipótese, Leite Lopes nos deu a primeira avaliação correta da massa dos bósons vetoriais.

Além de suas atividades de pesquisa científica, Leite Lopes preocupou-se sempre com a Educação e com o papel social do cientista e da Universidade, como atestam suas publicações sobre estes temas. De fato, é autor de 22 livros, dentre livros-textos e de reflexões sobre Ciência, e de mais de uma centena de artigos sobre educação e política científica.

Como reconhecimento à sua vasta obra, recebeu o título de Professor Emérito da UFRJ (1984), da Univ. Louis Pasteur, Strasbourg, França (1986), da Universidade Federal de Pernambuco (1986) e do CBPF (1992), e o título de Doutor Honoris Causa da UERJ (1989). É membro de sete Sociedades Científicas no Brasil e no exterior, tendo recebido as seguintes condecorações: medalha da Universidade Louis Pasteur de Strasbourg (1986); medalha Carneiro Felipe da Comissão Nacional de Energia Nuclear (1988); Ordre des Palmes Académiques, do governo francês no grau de Officier (1989); Ordre National du Mérite, entregue pelo Presidente da República Francesa no grau de Officer (1989); Prêmio Nacional da Ciência Álvaro Alberto (1989) e Prêmio México de Ciência & Tecnologia do governo mexicano (1993).

Esta apresentação resumida  inevitavelmente fria e formal  do curriculum vitae do Prof. José Leite Lopes é, sem dúvida, incompleta, principalmente porque não reflete o prazer de se conviver no dia-a-dia com Leite Lopes, de compartilhar de seu idealismo contagiante, de seu entusiasmo que parece não ter fim.

Concluindo, gostaria de agradecer ao Prof. Leite Lopes por continuarmos a desfrutar do convívio estimulante com esse homem crítico, perspicaz, irônico, inquieto e, sobretudo, apaixonado. Caríssimo Leite, parabéns e muitos e muitos anos de vida! Muito obrigado.

Francisco Caruso
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

* O presente texto corresponde à intervenção de Francisco Caruso em homenagem a José Leite Lopes, realizada em quatro de novembro de 2005, no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF. É parte integrante também da Série Ciência e Sociedade (CS010/05) editada pela Coordenação de Documentação e Informação Científica do CBPF.


Sobre Leite Lopes
por Cesar Lattes, Amós Troper, Henrique Fleming, Ricardo Ferreira, Sérgio Joffily  e João dos Anjos


LEITE LOPES E A FÍSICA NO BRASIL: UM TESTEMUNHO PESSOAL*

Leite Lopes é um exemplo da flutuação estatística no Brasil. A cidade de Recife, no Estado de Pernambuco, onde nasceu, é famosa por produzir notáveis pintores, escritores, sociólogos e também físicos e matemáticos, que são igualmente flutuações neste país.

Conheci Leite Lopes em 1943, na Universidade de São Paulo, onde veio fazer cursos avançados. Juntamente com Sonja Aschauer – que mais tarde trabalhou com P.A.M. Dirac em Cambridge – e também Walter Schützer, assistíamos às aulas de Gleb Wataghin e Mário Schenberg. Isso ocorreu um pouco antes de minha ida para Bristol para trabalhar com o grupo que estava desenvolvendo a técnica de emulsão nuclear – C.F. Powell, G. Ochialini. Leite Lopes foi trabalhar com W. Pauli e J.M. Jauch na Universidade de Princeton.

No ano de1943, em São Paulo, Leite Lopes começou a trabalhar com Schenberg na teoria clássica do elétron puntiforme. Alguns anos antes Dirac tinha dado uma importante contribuição à teoria com a definição do campo de radiação como a diferença entre metade do campo avançado e metade do campo retardado. Eu, Schenberg e W. Schützer utilizamos este trabalho mais tarde para o estudo de partículas com momentos dipolares. Leite veio de Recife, onde tivera grandes mestres, como Luiz Freire. Após graduar-se Engenheiro Químico em Recife, cursou a graduação em Física no Rio de Janeiro e depois de trabalhar com Schenberg, em São Paulo, foi para Princeton. Ainda em 1943 conversamos sobre a possibilidade de formar um grupo de pesquisa na área de física nuclear e de partículas no Rio.

Discutimos o assunto novamente em 1946-1947, quando Leite Lopes já tinha sido indicado para a cadeira de Física Teórica na Universidade do Rio de Janeiro e eu vim de Bristol para expor as emulsões nucleares no Laboratório de Chacaltaya, perto de La Paz, a 5.500 metros de altitude. Tais condições eram comparativamente favoráveis à investigação dos raios cósmicos, já que o Laboratório onde tinham sido feitas as primeiras observações dos píons ficava a 2.800 metros de altura, nos Montes Pirineus, na França. Quando mostrei a Leite Lopes os primeiros decaimentos π-µ obtidos em Chacaltaya, ele ficou excitado ante a possibilidade de se ter encontrado um processo fundamental – o que se confirmou após termos detectado aproximadamente trinta desses decaimentos. Leite imediatamente começou a trabalhar nestas questões e, de Bristol, eu lhe enviei os resultados de nossas medidas e ele tentou verificar o esquema de Müller-Rosenfeld de uma mistura de mésons vetoriais e mésons pseudo-escalares.

Lembro que quando voltei de Chacaltaya, a caminho de Bristol, usei o microscópio de Costa Ribeiro na Universidade Federal do Rio de Janeiro para observar a terceira emulsão nuclear com um decaimento π-µ. Eu mostrei o evento para Guido Beck e Leite e, para mim, este já era um processo fundamental.

Durante minha estada em Bristol, em uma das visitas que fiz ao Rio, Leite e eu conversamos com o representante brasileiro da Comissão de Energia Atômica das Nações Unidas, Álvaro Alberto, para que ele conseguisse, junto à Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos, uma autorização para que eu pudesse trabalhar no Laboratório de Radiação de Berkeley, onde havia um acelerador para se obter partículas alfa com 380 MeV. Isto dava 95 MeV para cada núcleon e, se acrescentássemos a energia de Fermi, poderíamos produzir mésons. Leite e eu verificamos tudo isso e concluímos que o processo era possível. O Laboratório era bastante seletivo, mas Álvaro Alberto conseguiu, através do Sr. B. Baruch, permissão para que eu trabalhasse lá. Leite Lopes me encorajou a ir para Berkeley tentar verificar se os mésons poderiam ser produzidos em colisões núcleon-núcleon. A detecção dos píons nestas colisões foi obtida pela primeira vez em 21 de fevereiro de 1948, com Eugene Gardner, que estava muito doente e faleceu pouco tempo depois. Só então pudemos verificar claramente que os píons negativos eram absorvidos pelos núcleos para produzir estrelas, enquanto os positivos decaíam em múons. Esta descoberta teve enorme repercussão nos Estados Unidos e também no Brasil, onde Leite Lopes escreveu artigos para jornais explicando sua importância para o público.

Enquanto estava em Berkeley, conheci Nelson Lins de Barros e começamos a discutir a possibilidade de criar um Centro para a Física no Rio. Em dezembro de 1948 estive no Rio para uma visita, e juntos, Leite e eu, fomos conversar com o João Alberto Lins de Barros, o irmão do Nélson. João Alberto era um político muito influente no Brasil e apoiou fortemente a criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

Em 1949, Leite esteve no Instituto de Estudos Avançados em Princeton e nos encontramos com os físicos brasileiros Jayme Tiomno, W. Schützer e H.G. Carvalho para discutir a Física no Brasil.

Com o meu retorno dos Estados Unidos, João Alberto Lins de Barros obteve recursos para a instalação provisória do Centro. Richard Feynman e Cecile Morette vieram ao Rio e ministraram aulas em Junho-Julho de 1949. Juntamente com Leite, convidei personalidades e professores universitários de outros estados do país para se juntarem a nós como patrocinadores do novo laboratório, e eu fui indicado por Leite Lopes e Costa Ribeiro para a recém-criada disciplina de Física Nuclear na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tiomno retornou de Princeton e se uniu a nós; Guido Beck, que estava na Argentina e tinha visitado o Rio antes, veio definitivamente para o CBPF. Nós batalhamos para obter recursos da iniciativa privada. Um jornalista, Lourenço Borges, ajudou-nos com a divulgação. Um auxílio da iniciativa privada nos permitiu construir um pequeno galpão para o nosso laboratório no Campus da Universidade. O primeiro trabalho científico do CBPF foi feito por Elisa Frota-Pessôa e Neusa Margem. Elas estabeleceram o primeiro limite experimental no decaimento de mésons em elétrons. A UNESCO nos enviou uma missão científica composta pelos físicos G. Occhialini, Ugo Camerini, Gert Molière e pelo especialista em eletrônica e alto vácuo, G. Hepp.

Nosso Embaixador na UNESCO, Paulo Carneiro, nos ajudou a obter bônus da UNESCO para aquisição de livros e periódicos científicos. Em 1951, tendo Álvaro Alberto como presidente, foi criado o Conselho Nacional de Pesquisas do Brasil e o CBPF recebeu recursos dele. Um Simpósio em Novas Técnicas de Pesquisa em Física foi realizado no Rio e em São Paulo, e nós recebemos a visita de I.I. Rabi, E.P.Wigner, S. de Benedetti, Emilio Segrè, John e Leona Marshall, H.L. Anderson, R. Gans, Manuel Vallarta e muitos outros físicos.

Por essa ocasião, Rabi sugeriu que, uma vez que São Paulo já possuía um gerador Van de Graaf, deveríamos construir um acelerador de altas energias no Rio, como o que existia em Chicago, para partículas de 400 MeV. A idéia foi aceita pelo Conselho Nacional de Pesquisas e seu presidente, Álvaro Alberto, mas uma crise política em 1954 interrompeu o projeto já em curso. Essa crise afetou profundamente minha saúde, com reflexos até os dias de hoje.

Em 1960, Leite Lopes tornou-se Diretor Científico do CBPF – posição anteriormente ocupada por mim, por Oliveira Castro e por Guido Beck – e propôs à UNESCO a criação de um Centro Latino-Americano de Física com o apoio dos governos latino-americanos. O CLAF foi efetivamente criado alguns anos depois e Leite indicou Gabriel Fialho para ser seu Diretor.

Leite Lopes, em minha opinião, possui duas qualidades básicas: é um brilhante professor, que dá lindas aulas e um cientista criativo que realizou um trabalho científico original devido a sua excelente intuição. Sua contribuição mais importante para a Física, creio, foi seu artigo de 1958, no qual propõe que a constante de acoplamento dos bósons vetoriais com corrente fraca carregada seria igual ao acoplamento elotromagnético. Isto já sugeriria a unificação das forças eletromagnéticas e fracas já que, se o fóton, que é vetorial, interage com a corrente elétrica na mesma intensidade que os bósons vetoriais com as correntes fracas, eles pertencem, então, à mesma família. Mas, eu me lembro que ele ficou perturbado com o alto valor da massa do bóson vetorial obtido quando g = e, porque seria difícil entender um multipleto com uma partícula tão pesada e um fóton de massa tão nula. De qualquer modo, eu acho que ele foi o primeiro a sugerir a unificação eletrofraca e a propor o bóson vetorial neutro e o experimento para detectá-lo.

Após visitar o Rio em 1949, a convite de Tiomno, que então estava em Princeton, Feynman foi convidado novamente em 1951, por Leite Lopes, a visitar o CBPF por um ano, durante o seu período sabático. Durante sua estada, Leite e Feynman trabalharam juntos. Leite sempre procurou convidar bons físicos para o nosso centro, por esta razão, organizou a Escola Latino-Americana de Física, no Rio de Janeiro, em 1960.

Muitos alunos de outros estados brasileiros e de outros países da América Latina foram atraídos para o CBPF e muitos outros trabalharam sob a direção de Leite Lopes.

Leite tem grande capacidade de trabalho, imaginação e vasta cultura; ele ama a pintura e poetas como Rilke. Eu prefiro Kafka, que, embora não seja um poeta, é mais profundo. Mas, acima de tudo, é um bom amigo. Posso dizer que, além de Gleb Wataghin e Giuseppe Occhialini, Leite Lopes teve grande influência na minha carreira científica.

Na ocasião do seu 70º. aniversário, eu lhe desejo grande sucesso em suas várias atividades.

C.M.Lattes
Tradução: Márcia Reis
Supervisão: Amós Troper

*Tradução do texto Leite Lopes: a Personal Testimony estabelecido pelos editores do livro “Leite Lopes Festschrift a Pioneer Physicist in the Third World”, N.Fleury, S.Joffily, J.A. Martins Simões e A. Troper a partir de depoimento gravado por César Lattes.


JOSÉ LEITE LOPES: PERFIL RESUMIDO DE UM CIENTISTA-HUMANISTA*

O nome de José Leite Lopes e o desenvolvimento da Física no Brasil estão profundamente imbricados. Bacharel em Química Industrial pela Escola de Engenharia de Pernambuco, em 1939, sofreu grande influência de seu grande mestre Luiz Freire, cujas aulas lhe transmitiam, segundo seu próprio testemunho, além das teorias físicas, um sentimento de harmonia e de beleza das idéias científicas, do seu encadeamento lógico e de suas ricas implicações.

Leite Lopes dedicou muito de seu entusiasmo e de seu tempo a discutir e lutar para mudar as condições de ensino e a própria universidade em nosso país, uma tarefa da qual nunca abdicou, mesmo nos anos de exílio político. Essa sua dedicação, que o caracteriza como um verdadeiro cientista-humanista, traduz-se de forma muito ampla.

Além da importante obra científica que produziu, foi figura fundamental na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, da Universidade de Brasília e do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Outra face deste "educador teimoso" espelha-se na publicação de mais de vinte livros - técnicos, didáticos e de divulgação científica - e de um sem-número de artigos em jornais sobre política científica e as relações entre ciência e sociedade. A leitura destes escritos comprova o quanto é raro encontrar hoje pesquisadores com o perfil de José Leite Lopes.

Amós Troper
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas – CBPF

* Extraído do livro Ciência e Liberdade: escritos sobre ciência e educação no Brasil. Organização de Ildeu de Castro Moreira. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ; CBPF/MCT, 1998.


JOSÉ LEITE LOPES: PROTAGONISTA DA CULTURA BRASILEIRA*

Dizer que José Leite Lopes é um grande físico, e que descobriu um dos pontos de apoio que permitiram a Steven Weinberg receber o Prêmio Nobel, é ainda dizer pouco. Estaríamos destacando apenas um dos muitos talentos deste imenso protagonista da cultura brasileira, e que nem só da cultura brasileira é, já que criou sua escola e seus seguidores também na França, para onde teve de ir, nos anos de chumbo. Lá, foi muito bem-vindo, e o presidente Giscard D’Estaing o nomeou professor da Universidade de Estrasburgo. Na época, comparando-o a Garibaldi chamei-o de “Físico dos Dois Mundos”.

Neste livro, que poderia ser chamado de “ABC da Inteligência”, Leite Lopes fala sobre uma grande variedade de tópicos, breves monólogos classificados em ordem alfabética, pinceladas que vão, pouco a pouco, compondo o quadro do pensamento e da ação do autor. Não por acaso, Leite Lopes é também pintor admirado. Essa brilhante iniciativa de Francisco Caruso vem mostrar uma outra face do estilo do autor, até aqui predominantemente épico em seus livros e, sobretudo, em suas maravilhosas conferências. Muito bem editado, com numerosas referências cruzadas, está tão próximo de um hipertexto quanto um livro impresso pode ser.

Deverá servir tanto como leitura de cabeceira, deliciosa, infinitamente renovável (pois a leitura de cada verbete se beneficia da leitura dos outros), quanto como ponto de partida para pesquisas de nossa época, pois Leite Lopes sabe ser profundo, original e, sobretudo, claro. Como água do pote, diria Monteiro Lobato.

Henrique Fleming
Universidade de São Paulo

*Extraído do livro José Leite Lopes: idéias e paixões. Organização e edição de Francisco Caruso. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF/MCT, 1999.


JOSÉ LEITE LOPES – UM DEPOIMENTO PESSOAL*

José Leite Lopes faz parte daquele pequeno e seleto grupo de brasileiros que fizeram Ciência de alta qualidade bem antes da existência oficial de atividade científica no Brasil – que podemos datar de 1951, com a fundação do CNPq e da CAPES.

Leite formou-se como Químico Industrial em 1939, na antiga Escola de Engenharia de Pernambuco. Dois dos seus Professores foram então fundamentais para seu posterior desenvolvimento: os Professores Luiz de Barros Freire e Osvaldo Gonçalves de Lima.

Este último conseguiu uma bolsa da Fábrica de Doces Peixe, com auxílio da qual Leite fez o Bacharelado em Física na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro. 1942, Leite passou-o em São Paulo, trabalhando com outro grande físico pernambucano, Mário Schenberg, e em 1943 foi fazer seu Doutoramento em Princeton, com bolsa americana.

Costumo dizer que Leite é o único Físico brasileiro que descende, direta e formalmente, de um dos fundadores da Mecânica Quântica, Wolfgang Pauli, pois foi com Pauli que Leite obteve o seu Ph.D., em 1946.

Voltando ao Brasil em 1947, Leite não encontrou, mesmo no Rio de Janeiro, condições apropriadas para desenvolver um Centro de investigações que combinasse Ensino e Pesquisa.

O clima da época fica claro se eu lembrar que, ao propor ao Reitor da então Universidade do Brasil tempo integral e dedicação exclusiva para os Professores, ouviu como resposta que “os Professores no Brasil já são muito bem pagos”.

Felizmente, 1947 foi também o ano em que César Lattes – que fizera amizade com Leite ao passar pelo Rio de volta da Bolívia, onde fora expor suas chapas fotográficas aos raios cósmicos nas alturas dos Andes – tornou-se célebre por suas descobertas dos mésons ∏ e µ. Em 1949, com Lattes já de volta da sua viagens, Leite conseguiu fundar o CBPF, uma Instituição privada com mandato universitário para oferecer Cursos de Pós-Graduação.

Apesar de ser pernambucano como Leite, e tendo ouvido falar muito das suas façanhas como Físico, mesmo como estudante secundário, em 1944-45, só conheci pessoalmente Leite durante a 7ª Reunião Anual da SBPC, que ocorreu no Recife, em Julho de 1955. Foram Leite e Jacques Danon que me aconselharam a pedir uma Bolsa de Pesquisa no CNPq, para trabalhar com Danon no CBPF.

Mas quando cheguei ao Centro, em Março de 1957, Leite estava em Pasadena, convidado por seu amigo Richard Feynman. Somente em Agosto daquele ano de 1957 voltei a me encontrar com Leite, mas a espera valeu a pena, porque, na sua volta da Califórnia Leite concordou em dar um curso de Mecânica Quântica para Químicos, na Cadeira do Professor Augusto A.L.Zamith da ENQ, nossa vizinha na Avenida Pasteur. Para mim o curso foi estupendo, creio mesmo que nunca aproveitei outro igual, porque, além do seu profundo conhecimento de Física, Leite é um didata excepcional. Suas aulas são vivíssimas, com aportes espirituosos apropriados. É impossível, tendo-se uma base razoável de Matemática, não se aprender alguma Mecânica Quântica com Leite. Isto, aliás, fica evidente pela leitura dos 5 ou 6 livros didáticos que escreveu, em português, inglês e francês.

Todos sabem que Leite não tem nada do cientista estreito, unicamente concentrado em suas pesquisas. Ele sempre foi um homem que se preocupa com o Brasil, com a ciência brasileira, com a Paz Mundial.

Ao longo desses 50 anos de conhecimento e amizade, são muitas as situações e histórias que tive a sorte de compartilhar com Leite. Permitam-me contar uma, que ocorreu na sua visita ao Recife, em Fevereiro de 1986.

Dias antes, conversando com minha mãe, que tinha então 91 anos de idade, mencionei a próxima vinda de Leite ao Recife. Ela então me disse:

- Conheci muito a mãe dele, Beatriz.

E virando-se para sua irmã, minha tia Ruth, acrescentou:

- Lembra-se dela? Com cabelos longos, quase louros!

Ora, a mãe de Leite falecera poucos dias depois de dar à luz a Leite, em Outubro de 1918, vítima da Grande Gripe Espanhola.

O que aconteceu então foi que, ao contar o episódio a Leite, este fez questão de conhecer minha mãe, justificando:

- Os neurônios do cérebro dela contêm possivelmente as últimas evidências físicas da minha mãe!

E assim foi feito, e Leite conheceu aquela pessoa que conhecera sua própria mãe, 70 anos antes, e que guardara sua imagem para sempre...

É para mim motivo de orgulho ser amigo de José Leite Lopes. Devo-lhe minha carreira como Físico-Químico, mais do que a qualquer outra pessoa. Além das horas, dias e anos cheios de conversas proveitosas, alegria e amizade.

Ricardo Ferreira
DQF/Universidade Federal de Pernambuco
Recife, Pernambuco, Janeiro de 2006


JOSÉ LEITE LOPES, UM PIONEIRO DA FÍSICA NA AMÉRICA LATINA*

A Faculdade Nacional de Filosofia atingiu sua maioridade em 1948, quando um de seus ex-alunos, pela primeira vez, conquistava uma cátedra. Era Leite Lopes que assumia o cargo com espírito de mudança. No seu discurso de posse, intitulado “Universidade e pesquisa: os nossos problemas”, ele focalizou as dificuldades na realização de pesquisas e cobrou a implantação do regime de tempo integral. A necessidade de sangue novo já era reconhecida por membros da congregação, como se observa no discurso de recepção pronunciado pelo Professor Joaquim da Costa Ribeiro:

“(...) possui, em alto grau, uma qualidade rara e muito preciosa; a qualidade de levar a sério as coisas de que se ocupa e fazer bem feito tudo aquilo que faz. Modesto e discreto, mas não conformista e não conformado, sabe dizer, quando é preciso, as verdades menos agradáveis, sempre, porém, de maneira elegante, como um gentleman, e muitas vezes com delicioso sense of humor (...)”.

Leite Lopes convenceu Costa Ribeiro a criar a cátedra de Física Nuclear, na FNFi, a fim de fixar Cesar Lattes no Rio de Janeiro, possibilitando a realização de antigo sonho de um grupo de físicos: a criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. O CBPF, vivendo com fundos da Confederação Nacional das Indústrias, marcou o início da mudança do centro de gravidade da física brasileira para o Rio de Janeiro. Esta foi a alternativa que Leite, juntamente com seus colegas, encontrou para desenvolver grande parte da pesquisa, do ensino e da política científica de nosso País.

Após a criação do Centro Latino Americano de Física, CLAF, como um dos diretores da Escola Latino Americana de Física ao lado de J.J.Giambiagi e M. Moshinsky, Leite se empenhou no desenvolvimento da Física na América Latina.

As contribuições científicas do Professor José Leite Lopes cobrem uma grande variedade de campos da Física. Dentre elas destaca-se a predição da existência de bósons vetoriais neutros como veículos da interação fraca. Leite sugeriu, em 1958, a unificação das forças eletromagnéticas com as forças fracas, postulando a igualdade das constantes de acoplamento (g = e), acarretando a primeira avaliação da massa dos bósons vetoriais.

Minha primeira experiência como aluno do Professor Leite Lopes aconteceu no 3º ano da Faculdade, no curso de Estrutura da Matéria. Nesta ocasião pude constatar que a importância de Leite para o ensino da Física não se limitava à qualidade de seus textos didáticos, mas à fluência de suas preleções que realçava o conhecimento intuitivo dos fatos físicos antes de introduzir as suas representações matemáticas.

Em 1969, impedido de trabalhar para o seu País, Leite escolheu a França como local onde aplicar seus conhecimentos e sua imaginação criadora. Aceitou os convites do Centre de Recherches Nucléaires (CRN) e da Université Louis Pasteur de Strasbourg. Lá testemunhei a criação, pelo Professor Leite Lopes, do grupo de Fisica Teórica de Altas Energias com vários alunos europeus e alguns brasileiros. Mesmo distante, Leite continuava presente ao desenvolvimento da física na América Latina, seja em suas visitas científicas ao México, Venezuela e outros países, como recebendo pós-docs e professores em ano sabático. Foi durante a estada do Professor Garcia Canal da Universidade de La Plata em 1978 que germinou a criação da atual “Rede Latino- Americana de Fenomenologia”.

Sergio Joffily
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas -CBPF


ENCONTROS E DESENCONTROS COM LEITE LOPES: DE COMO CONHECI E QUASE ME TORNEI DISCÍPULO DO MESTRE *

Corria o ano de 1969. Acabara de me formar em Física na UFRJ e começara a fazer o mestrado no CBPF, onde já havia feito uma iniciação científica com Elisa Frota Pessoa. Após terminar os cursos básicos, precisava escolher um orientador e um tema para a tese de mestrado. Havia ficado impressionado com o curso sobre Simetrias ministrado por Leite Lopes e com a Física de Partículas Elementares, campo que explodia de novidades e no qual havia muitas perguntas sem respostas. Fui procurar Leite que, simpático e caloroso como sempre foi, aceitou ser meu orientador. Deu-me três artigos sobre álgebra de correntes para ler e pediu que voltasse dali a 15 dias para conversarmos. Nesse meio tempo a situação política do país se deteriorou. Estávamos em 1969, em plena ditadura e vivendo sob o impacto do AI-5. Embora o CBPF fosse uma Sociedade Civil e Leite estivesse, em princípio, ao abrigo de injunções políticas, amigos o avisaram de que deveria deixar o país se não quisesse ser preso.

Quando voltei a procurá-lo tomei conhecimento de que estava indo embora do Brasil. Desanimado, ainda perguntei quem mais poderia me recomendar como orientador. Seu conselho foi que deixasse o país, que fizesse um doutorado no exterior. Com sua carta de recomendação, consegui uma bolsa de Cooperação Técnica da Embaixada da França. Terminei 1969 em Paris, matriculado na Universidade de Orsay, e Leite na Universidade de Pittsburg, como pesquisador visitante.

Embora tenha perdido a oportunidade de ser orientado por Leite Lopes nossos destinos se cruzaram novamente vinte anos mais tarde quando, Diretor do CBPF, me convidou para ajudá-lo na Vice-Diretoria, me iniciando nas artes da política científica, atividade que dividi com a pesquisa durante vários anos como Vice-Diretor de Amós Troper e depois como Diretor do CBPF. A lembrança da postura independente de Leite e seu espírito de luta incansável pelo CBPF me deram forças para enfrentar e superar as crises que a instituição viveu na sua passagem para o MCT, no início dos anos 2000, ameaçada de ser absorvida numa universidade ou de perder a sua pós-graduação. Assim, seus ensinamentos muito me influenciaram e de alguma forma me considero um discípulo do mestre.

Ao longo dos anos de convivência no CBPF pude conhecer Leite Lopes e suas diversas facetas: o extraordinário e intuitivo pesquisador que propôs a existência do bóson neutro Z0 e fez uma primeira estimativa da massa dos bósons W, supondo a igualdade do acoplamento das forças fracas e eletromagnéticas. O cientista político que escreveu dezenas de livros sobre ciência e sociedade e sobre política científica. O professor brilhante que a todos magnetizava em suas aulas. O educador que ajudou a criar centros de pesquisa e universidades. O administrador visionário que não se contentava em administrar o dia a dia da instituição, mas que buscava projetos científicos inovadores. O artista sensível que pintava catedrais. O amigo generoso. O homem que amava todas as mulheres...

Que falta nos fará o mestre!

João dos Anjos
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF


A Arte de Leite Lopes

LEITE LOPES: O POLIEDRO E O ALBATROZ

Leite Lopes é uma figura poliédrica, multifacetada.

Físico teórico dos mais brilhantes de sua geração, é também um grande professor que através de seus livros influenciou toda uma linhagem de cientistas. Tem sido, ademais, ao longo de sua vida, agitador cultural e político, combatendo o bom combate visando a implantação de um ambiente de pesquisa científica no Brasil – chave para a verdadeira emancipação nacional.

Leite Lopes é um apóstolo do homem total concebido no Iluminismo, interligando o trabalho científico, político e artístico numa atividade coerente e unificada.

A sua pintura não é um simples pendant de sua atividade científica; antes, se constitui numa parceira entre arte e ciência, visando exaltar a civilização e a vida, bradando contra a “desespiritualização” moderna e a morte.

A pintura de Leite Lopes possui essencialmente dois leitmotiven – as jangadas e as catedrais que se interpenetram – a refletirem experiências fundamentais de sua vida: a sua infância e adolescência passadas no Recife e o seu exílio na maturidade em Strasbourg.

Nos seus trabalhos abstratos, as cores vivas refletem a luz firme do Recife, notando-se aí uma furtiva lembrança da fase parisiense de seu conterrâneo Cícero Dias.

Não se pense que seus quadros se bastam a exibir um colorismo fácil e superficial. No cadinho da impaciência e do desespero, pelo fracasso da sonhada Utopia, Leite Lopes forja uma Obra em que se insinuam maravilhas e mistérios do mundo dos vivos, vistos das alturas como por um albatroz baudelaireano.

Amós Troper

Nota: Texto publicado originalmente no Catálogo da Exposição Construção e desconstrução: o mundo cósmico de Leite Lopes, realizada pela Academia Brasileira de Ciências de 28 de outubro a 21 de novembro de 2003 com a curadoria de Celeste Nogueira Campos.


ESPAÇOS DA CATEDRAL IMAGINÁRIA: A imaginação do espaço na pintura do Professor Leite Lopes*

A produção artística do Professor Leite Lopes inclui desenhos e pinturas que ele vem realizando desde os anos cinqüenta.

“Era outono, e as folhas caíam”, nos disse, de modo poético, ao referir-se aos primeiros trabalhos.

Ao selecionarmos as obras apresentadas nesta exposição, escolhemos uma pequena parte de um acervo numeroso e definimos o seguinte critério: destacar similitudes formais na produção pictórica através de uma “leitura” do espaço imaginário.

Na arte, o espaço imaginário é o lugar de emergência da experiência estética. Mesmo que o artista se expresse de modo realístico ou apresente alguma analogia com as coisas do mundo e da natureza, a espacialidade do objeto de arte realiza-se, sempre, por uma metamorfose.

A imaginação requer o trabalho do corpo: cristalizada pelo gesto, traz ao mundo novos seres – nem figurativos, nem abstratos. Eles são seres de imagem: têm vida e linguagem próprias.

No conjunto de obras do Professor Leite Lopes, a temática se diversifica: paisagens, casario, figura humana, madonas, cristos, catedrais e vitrais ...

Contextualizando seus trabalhos, observamos que os vários temas se articulam numa rede poética. Essa rede é extensa e seus pontos de contacto são tessituras espaciais; nelas, as imagens se completam à maneira das peças de um vitral.

Recortes de vidro em metamorfose, a matéria desse espaço ilumina-se; fixa e des-fixa áreas de cor, mostra entre-espaços que transitam nas várias obras, realizando um percurso pelos meandros de uma catedral imaginária; ela própria, uma peça de vitral.

O Professor Leite Lopes morou em Strasbourg, perto da catedral; mas em seus quadros a catedral é uma imagem onírica, imagem que ele desconstrói, continuamente, e rearticula em formas imersas em luzes e cores, quase sempre noturnas.

Expressas por texturas pastosas ou através de regiões menos densas, as cores puras são contornadas por um percurso de linha, que separa e aproxima seres de uma fábula revivida entre arcos e ogivas.

Desse jogo surgem outras catedrais, paisagens, árvores, cristos, madonas, luas, jangadas e uma infinidade de seres de imagem, localizados no mundo cromático, em que o vitral é um símbolo.

Esse símbolo é privilegiado no plano sensível, é traduzido pictoricamente no espaço com valor de lugar; e o lugar é a região onde os azuis, amarelos e vermelhos percorrem na noite os passos da paixão humana: trilhas onde o “espaço” é tátil.

Em alguns momentos, o pintor acentua a verticalidade da catedral imaginária – ela é um vulto na névoa. Em outros, ao desconstruí-la, ele direciona flechas, ogivas, torres; dilui os vitrais, dando simultaneidade a imagens existentes em tempos diversos.

No trabalho intitulado “La Cathédrale Engloutie” – reproduzido na capa deste catálogo – a catedral é um frontispício vermelho, deslizante – em descese – entre luzes pálidas e águas sombrias.

A fachada surge três vezes no espelho das águas. É, simultaneamente, catedral, labareda, flor e pétala vermelha, figura de vitral...

Sob o fulcro de luzes distantes, ela desce às águas antigas que um dia umedeceram os arcos das catedrais da Idade Média – e flui nas mesmas águas que tocaram, pela primeira vez, a clareza da pedra.

A pedra, a manhã ... desfizeram-se num tempo anterior – no tempo da noite – que permanece na catedral onde dormem as luzes que tingiram seus reflexos na névoa.

Fachada, ogiva, luz, vitral, ela ressurge arquetípica nos espaços diluídos nas tintas de “Universo em Vermelho”.

Aqui, não há analogia visual, mas ela habita as luzes de um vermelho-vitral – a inquietude de um vermelho surgido no calor da moldagem da pasta de vidro – que recupera e atualiza os sentidos velados nas águas e espaços de uma catedral submersa.

Nos movimentos destas imagens, aprendemos: não contemplamos uma catedral, suas luzes e sombras nos acolhem de súbito em recantos íntimos.

E, diante da catedral submersa – uma chama entre bruma e água –, perguntamos:
Que infinito iluminou-se primeiro?
o céu?
o oceano?

E, ao visitante desta mostra, sugerimos iniciar seu percurso pela inqüietude poética enraizada no espaço imaginário da “Catedral Submersa”.

Mirian de Carvalho
Associação Internacional de Críticos de Arte
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, outubro de 1998

*Extraído do catálogo da exposição ESPAÇOS DA CATEDRAL CATEDRAL IMAGINÁRIA. Realizada em Outubro de 1998. Curadoria, Arte Gráfica e Edição de Mirian de Carvalho & Francisco Caruso. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF/MCT.


 

“Universo em Vermelho – 1973 “Eclipse” - 1975
   
“Silêncio” - 1956
   
“La Cathédrale en Feu”-1983 “Catedrais na Névoa” – 1997
   
Sem título – 1979 Sem título – 1985
Coleção Amós Troper Coleção Amós Troper
   
“O Chão do Vitral” – 1966 “Vitral Brasileiro” -1974
   
Pintura em Porcelana – s/d A Ceia – (pintura em porcelana s/d)
 

Vídeo

"Em fins de 2003, em um simpósio realizado na USP em homenagem ao Michel Paty, o Leite Lopes fez uma palestra muito interessante e emocionante, relembrando aspectos de sua trajetória durante o regime militar. Esse simpósio foi gravado, e sairá agora um vídeo documentário sobre o mesmo. Eu solicitei ao realizador do documentário que separasse a fala do Leite e disponibilizasse na Internet. O vídeo só com a fala de Leite está disponível abaixo."

Olival Freire Jr.
Instituto de Fisica - UFBa

  Clique na imagem para assistir a palestra



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Agradecimentos:

Nossos agradecimentos a todos que contribuíram para a realização deste projeto, em especial:

AMÓS TROPER
FRANCISCO CARUSO
RICARDO FERREIRA
SÉRGIO JOFFILY
CELESTE NOGUEIRA CAMPOS
MARIA DO SOCORRO COSTA DO VALE
ROSÂNGELA CASTRO


Expediente:

CBPF – Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas
             MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Ricardo Magnus Osório Galvão
Diretor

Márcia Reis Brandão
Concepção e Edição de Conteúdo

Denise Coutinho de A. Costa
Coordenação de Atividades Técnicas – CAT/CBPF
Núcleo de Comunicação Social – NCS/CCI/CBPF
Realização
 


  

NÚCLEO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DO CBPF
E-Mail: ncs_cbpf_at_cbpf.br

Atualizado em: 07/07/2006