A Notícia no Brasil

"O ruído de alarmes de guerra não devem desviar nossa atenção do maravilhoso triunfo da ciência que foi noticiado em Viena. Foi anunciado que o Professor Routgen [sic] da Universidade de Wurzburg descobriu uma luz que, para as finalidades de fotografia, pode penetrar através de madeira, carne e a maioria das substâncias orgânicas. O professor fotografou com sucesso objetos maciços de metal que se encontravam dentro de uma caixa de madeira; também a mão de um homem, que mostrava apenas os ossos, a carne sendo invisível."

O parágrafo acima reproduz parte de uma notícia publicada pelo Daily Chronicle de Londres em 6 de janeiro de 1896. A matéria havia sido telegrafada pelo seu correspondente em Viena onde, no dia anterior, o Presse, jornal daquela cidade, havia publicado na sua primeira página um artigo sobre a descoberta dos raios X, por Wilhem Conrad Röntgen, no final do ano anterior. A notícia correu mundo e, com algum atraso, foi publicada por dois jornais brasileiros, em meados de fevereiro.



Jornal "O Paiz"

Sexta-feira, 14 de fevereiro de 1896.

Maravilhas do Século

"Estupenda descoberta preocupa actualmente o mundo scientifico europeu e já della tivemos ha dias telegrammas, cuja linguagem consisa nada explicava.

Chegam-nos agora revistas scientificas e jornaes medicos, que vieram esclarecer melhor a estupenda descoberta annunciada.

Ha pouco era o mundo scientifico abalado com a descoberta perfeitamente verificada por Lord Rayleigh e Ramsay da existencia do argon, um novo elemento até então totalmente desconhecido na atmosphera.

Presentemente são leis da physica, as mais bem firmadas e positivas, que se veem burladas pela descoberta de raios luminosos que não obedecem absolutamente nem as leis da reflexão, nem as da refracção.

Isto é entretanto mui pouco diante da propriedade maravilhosa, mágica, que tem a nova luz de poder atravessar corpos opacos, como o papelão, a madeira, metaes, etc,etc.

Graças a nova luz pode se photographar corpos e peças resguardadas por substâncias chamadas opacas.

É obtida fazendo-se passa uma corrente elétrica no vacuo.

Seu descobridor foi o professor Dr.Röntgen, da Universidade de Wurtzburgo.

Nas sociedades medicas de Berlim e de Paris têm sido apresentadas photographias de mãos e de outras partes do corpo humano em que as partes internas, ossos, articulações e ligamentos acham-se fielmente representados, a despeito da capacidade dos tecidos molles que não constituem obstaculo a nova luz.

Brevemente exporemos no salão do Paiz uma dessas photographias; documento vivo de quanto pode o engenho humano.

Daremos tambem opportunamente aos nossos leitores um estudo mais desenvolvido e detalhado da nova descoberta e suas consequencias praticas.

Já a medicina aproveitando a grande descoberta, procurou della auferir todas as vantagens possiveis.

E quaes possam ellas ser, tornar-se intuitiva diante do poder que possui a nova luz, cujos raios indo ao amago do corpo humano conseguirão revelar com precisão admiravel tanta coisa que ao medico até hoje tem sido possivel conhecer pelo exame subjetivo e por meio de inducções mais ou menos fundadas.

Já antes de hontem a bem informada Notícia publicou um telegramma de Berlim tornando conhecido o primeiro ensaio da nova descoberta applicada a medicina, coroado de resultado. Que surpresas nos reserva ainda esse fim de seculo?!




"Jornal do Comércio"

Sexta-feira, 16 de fevereiro de 1896.

A Photographia atravez dos Corpos Opacos

O eminente professor de physica Wilhelm Conrad Roentgen, de Wutzburgo, acaba de fazer uma descoberta destinada, se os seus resultados se confiemarem amplamente, a produzir uma profunda revolução nas sciencias, sobretudo na medicina e mais particularmente e immediatamente ainda na cirurgia. Trata-se de uma descoberta realmente assombrosa, a photographia atravez dos corpos opacos, impenetraveis à luz e que os estudos do eminente professor provarão ser permeaveis a alguns raios luminosos. Excederia os limites da nossa competencia, entrar na explicação scientifica destes maravilhosos phenomenos. O que é certo é que a descoberta delles é sem dúvida uma das maiores conquistas da sciencia, predestinada a levantar uma ponta do véo de tantas cousas occultas até hoje aos nossos olhos, e cuja applicação irá determinar os mais inesperados resultados.

Limitamo-nos por hoje a apresentar aos leitores as experiencias que se tem feito em tal sentido e que, como se verá, têm sido as mais satisfatorias.

O Dr. Spiess, de Berlim, offereceu as seguintes provas do grande valor da descoberta. Poz num porte monnaie uma chave e algumas moedas, embrulhou o volume em papel preto, collocou-o diante de uma chapa photographica e, entre estes objetos e a luz electrica, uma taboa de madeira da grossura de dous dedos. Em quinze minutos sahio uma photographia na qual se vião com perfeita nitidez a chave, as moedas e um contorno muito ligeiro do porte monnaie. A taboa não appareceu na photographia. Identico resultado para uma corrente de relogio mettida em uma caixa de madeira. A corrente fica claramente visivel como a fechadura e a chave da caixa, e os pregos que crusão as quatro taboas, ao passo que a madeira não se vê. O Dr. Spiess photographou ainda a mão de um operario vidraceiro, que continha havia muitos annos um estilhaço de vidro. A photographia revelou o ponto exacto do corpo extranho.

O jornal de medicina inglez Lancet refere a seguinte observaçãorelativa a um doente, que se achava em tratamento havia muitos mezes em um dos grandes hospitaes, o Guy's hospital.

Este individuo, que era marinheiro, tinha sido encontrado ébrio moribundo em um distrito mal afamado de Londres e transportado para o hospital. Passada a embriaguez, verificou-se que o infeliz estava paralytico das extremidades superiores e inferiores. O exame mais minuciosos não revelou mais do que insignificante chaga, situada na região dorso - lombar, e que não tardou a cicatrizar-se no fim de poucos dias. Desde então e a despeito de toda a medicação, o doente se conservava paralytico, quando o Dr. Williamson, chefe do serviço, teve a idéia de photographar a parte da columna vertebral correspondente à ferida.

O cliché revelou-lhe a presença de um corpo extranho, cuja natureza não pode elle logo determinar, visto que estava insinuado entre a primeira vertebra dorsal e a primeira vertebra lombar. Uma incisão no ponto preciso correspondente fez-lhe descobrir uma lamina de faca tão fortemente incrustada nos corpos vertebrais que lhe foi preciso empregar reaes esforços para extrahi-la.

No fim de poucos dias o doente teve alta. Em Berna uma criança tinha mettido uma agulha na mão. Tratava-se de localisar exactamente este corpo extranho.

O professor Kocher, com o auxílio do professor de physica Forster, tirou a photographia do membro e graças a este meio conseguio alliviar promptamente o doente.

Em Pariz o professor Dejerine conseguio photographar a forma de uma fratura.

Em Vienna, o professor Mosetig tendo que fazer duas operações, tirou préviamente a photographia dos pontos doentes, segundo o processo Roentgen. No primeiro caso, a imagem revelou-lhe com absoluta precisão o trajecto e a posição de uma bala de revolver na mão de um ferido; no segundo, o de uma menina affectada de deformação do pé, a imagem manifestou a sede e a xtensão do mal. Foi, pois, com perfeito conhecimento de causa que elle pôde operar.

Como se vê, as applicações praticas já são numerosas, tendo produzido os melhores resultados. Acompanharemos com o maior interesse todas as pesquisas e aperfeiçoamento que se fizerem, e no escriptório de nossa folha temos à disposição dos jeitores uma admirável photographia de uma mão humana, na qual se pode perfeitamente estudar a anatomia.



Notas sobre os raios de Röntgen e sua Introdução no Brasil

Extraído do arquivo do Prof. Henrique Morize (1860/1930)*, localizado no MAST - Museu de Astronomia (RJ).
* Físico, Astrônomo e ex-diretor do Observatório Nacional do Rio de Janeiro

As primeiras radiographias executadas no Brasil o foram no Laboratório de Physica da Escola Polytecnica do Rio de Janeiro, pelo então professor Dr. Francisco Carneiro da Cunha e seu Preparador Manoel de Queiroz Ferreira, logo que tiveram noticias pela imprensa do descobrimento do Prof. Roentgen. Utilizaram para isso um simples tubo de Crookes, do modelo chamado de "cruz" e destinado a demonstrar a marcha rectlínea dos raios catódicos e uma pequena bobina de Gaiffe. Obtiveram assim radiographias muito incorrectas, de uma chave e outros objectos metallicos encerrados numa caixa, é de uma mão, que exigiu uma hora de exposição. Os originais dessas radiographias ainda são conservados no mesmo laboratório, e trazem a data de 20 de março de 1896.

O Dr. Henrique Morize mandou vir, mais tarde da Inglaterra dois pequenos tubos "focus" então recentemente inventados e um pouco de fluoreto duplo de uranulo e ammonio, com o qual confeccionou um pequeno antepara fluorescente que serviu para as primeiras radioscopias, e depois executou as primeiras radioscopias realmente nítidas.

Essas experiências realisadas num laboratório do Observatório Astronômico foram muito concorridas e a Escola polytechnica ainda conserva diversas radiographias dessa época. Duas dellas trazem indicação de terem sido executadas com centelhas de 10 cm e trazem a data "6 Nov. 1896".

A pedido de alguns médicos que se interessavam pelo assumpto, realizou diversas radiographias que infelizmente não foram conservadas, e á vista dos resultados obtidos os Dres. Camillo Fonseca e Araújo Lima o Convidaram para com elles, fundarem um gabinete radiológico que se estabeleceu, em primeiro logar, na R. Gonçalves Dias.

O material encontrado á firma allemã Reiniger demorou muito para chegar. A princípio constava de uma bobina de 25 cm de centelha com interruptor Deprez, alimentada por uma batteria de pilhas de bichomato de potassio, um anteparo de platino-cyanureto de baryo de formato 24 x 30 cm de um supporte articulado e de meio duzia de tubos.

Mais tarde, o interruptor mettálico foi substituido por outro, de mercúrio e accionado por motor. As pilhas que eram muito incommodas, tiveram de ser abandonadas e em seu logar foram utilizados accumuladores. Não existia então, como agora, energia eléctrica canalisada, por isso tornou-se necessário installar-se um motor a petroleo Gartner, da potencia de 1 cavallo que accionava um dynamo Gramee, com o qual os accumuladores erão carregados.

Pouco depois, acrescentou-se ao material radiográfico um equipamento completo de d'Arsonval, para o uso therapeutico das correntes de alta freqüência, e um pequeno gerador de correntes sinusoidaes. Durante cerca de anno e meio que durou esse gabinete, foram executadas muitas radiographias, cujas mais interessantes ainda existem, como clichés, em poder do Dr. Camillo Fonseca.

Tendo se apresentado por diversas vezes a opportunidade de localisar projectis em pacientes, o Dr. Morize teve ensejo de Imaginar um processo radiométrico, simples e rapido, o qual forma o assunpto de uma nota apresentada á Academia das Sciencias de Paris, (C.R.31 de Janeiro de 1898 e reproduzida na conhecida revista "Eclairage Electrique, Vol XIV, 488).

Esse processo, hoje bastante divulgado é também encontrado na obra clássica de Londe "Traité pratique de radios copie et de radiographie".

Apezar de terem obtido satisfactorio exito technico, com meios de acção muito limitados, os resultados financeiros foram muito desfavoráveis, e os associados se viram, com muito pezar, forçados a abandonar a tentativa, que talvez tivesse vindo prematuramente á luz, pois a produção da energia eléctrica éra, naquelle tempo, excessivamente dispendiosa, os tubos se deterioravam facilmente e eram obtidos do extrangeiro depois de longa demora. Outra circunstância desfavorável consistiu na relativa abundancia de casos raros trazidos pelos médicos das suas clínicas hospitalares que, embora interessantes, eram gratuitos, enquanto que os que podiam custear as elevadas despezas erão muito raros. O resultado natural foi que, quando os associados tiveram de convencer-se de que, embora dispostos a trabalharem sem esperança de lucros, ainda eram forçados a arcar com prejuízos por tempo indeterminado, deram por terminada a experiência.



As notícias acima foram reproduzidas para dar uma idéia da admiração com que a possibilidade de fotografias através de corpos opacos, possibilitada pela descoberta dos Raios X, foi recebida pela imprensa cotidiana. Os jornais dedicaram a ela uma cobertura nunca antes dada a novidades científicas, e a admiração não foi menor entre físicos e médicos que, de imediato, perceberam o potencial e as implicações da nova descoberta.